Iraque

Uma brasileira no Iraque


No ano de 2018 recebemos um relato de viagem muito interessante da Kalynara Melo, que na época havia viajado sozinha para conhecer o Afeganistão. Os anos se passaram e agora ela nos traz um relato histórico muito interessante sobre a sua última viagem ao Iraque.

Estou apaixonada pelo Iraque!! Já estive aqui, no Cantinho da Viagem, falando sobre o Afeganistão, que é a possível Tribo de Benjamin (uma das doze tribos de Israel que recebeu o nome do filho mais novo de Jacó e Raquel). Como sou amante da história, especialmente a história bíblica, ao longo desses últimos 12 anos, pós visita ao Afeganistão, passei pela Síria, onde o apóstolo Paulo foi curado da cegueira; pelo Líbano, em Tiro e Sidom, onde Jesus pregava; pelo Irã, mais especificamente em Susã, cidade citada na Bíblia onde se passa a história de Ester e do Profeta Daniel (tive a oportunidade de visitar o seu túmulo) e onde fora encontrado o primeiro código de leis da história, o Código de Hammurabi, que atualmente se encontra no Museu do Louvre em Paris. Depois destas andanças, então, tinha de chegar o momento de conhecer o tão fechado Iraque!!

O Iraque passou 30 anos sem receber turistas até que o Papa Francisco, em 2021, resolveu visitar o intrigante País, local de proveniência do Rei Mago Belchior  e intitulado pelos iraquianos como “Berço da Civilização”. A partir daí o país começou a promover as suas potencialidades e se abrir de volta ao mundo. 

O primeiro grupo de turistas chegou logo após a visita do Papa, quando o Iraque resolveu conceder, aos europeus do espaço Schengen, visto no desembarque. Esse primeiro grupo de turistas, pela ausência do hábito de receber visitantes, foi preso e ficou uma hora esperando liberação das autoridades iraquianas que, assustadas, ainda não sabiam exatamente como agir.

A partir daí, as Embaixadas mundiais começaram a emitir vistos para os turistas (antes o visto era apenas para negócios). No entanto, é importante esclarecer que, para se obter o visto de turismo, é preciso solicitar a entrada no país, através de um patrocinador local, e obter uma autorização do Ministério das Relações Exteriores Iraquiana diretamente em Bagdá para sua emissão na Embaixada no Brasil.

Quando estava planejando essa viagem, pesquisei no Google e encontrei informações equivocadas em um Blog sobre o visto iraquiano. Além disso, uma grande empresa brasileira despachante também não tinha dados corretos para sua emissão, o que me causou muitos transtornos financeiros, uma vez que tive de cancelar um guia particular que eu havia contratado tendo em vista que eles têm de ter uma autorização específica para que sejam patrocinadores de um turista no País. Em função disso, levei 5 meses para ter êxito tendo que contar com a ajuda da embaixada do Iraque no Brasil e da Câmara de Comércio Exterior Brasil x Iraque para conseguir chegar ao País.

Resumindo sobre o visto: existem 2 Iraques… O Iraque de Bagdá, Mossul, Najaf e Ur e o Curdistão Iraquiano, para o qual os brasileiros não precisam de visto. Meu interesse verdadeiramente era a região mais bíblica possível e visitar a Babilônia, a Ur dos Caldeus, a Mesopotâmia e Bagdá era minha prioridade, então eu tinha de ter o visto emitido na Embaixada no Brasil com a anuência do Ministério das Relações Exteriores Iraquiano, sabendo-se que eles ainda não têm um Ministério do Turismo.

Finalmente consegui e, depois de muito custo, embarquei para o Iraque via Egito graças à licença que meu novo guia, Ahmed, tinha para providenciar a solicitação no Iraque e esta ser enviada ao Brasil. O meu visto foi o número 18 para uma Embaixada que atua no Brasil ininterruptamente desde 2012.

Desembarquei no Egito para ficar uma semana, mas fiquei decepcionada com o País. Bagdá é muito superior ao Cairo em termos de animosidade e de casas e restaurantes bonitos. As casas e prédios no Cairo, com exceção da região turística, têm um aspecto de inacabadas, já em Bagdá, a vista é mais limpa.

Ainda no aeroporto do Cairo, tive muitos problemas para embarcar. Como não é costume um turista ter visto para o Iraque, até mesmo para os egípcios que estão ali tão próximos, a companhia aérea foi muito austera para liberar meus cartões de embarque. Ao pegá-los, saí correndo rumo à imigração para que o visto de saída do Egito fosse carimbado o quanto antes no meu passaporte, foi quando escutei chamarem meu nome no som do aeroporto. Rapidamente me apressei e pedi a uns sauditas para eu passar à frente deles na fila. Consegui a saída, corri para o portão de embarque, entrei na aeronave e, com conexão na Jordânia, cheguei a Bagdá.

Fui recepcionada pelo motorista de Ahmed (o proprietário da agência de viagem iraquiana que me ajudou a obter o visto de turista) e no outro dia ele designou o Ali como meu guia diário para me pegar e começar o tour de oito dias, mas não antes de Ahmed me levar para experimentar um Falafel (bolinho de grão de bico). Eu verdadeiramente amo Falafel. É a melhor comida do Oriente Médio!

Começamos o dia em Bagdá, com muita emoção, em um passeio pelo Rio Tigre (com 1.900 km de extensão, o rio nasce na Turquia oriental e corre geralmente para sudeste até unir-se ao rio Eufrates, no sul do Iraque). Esse rio, tão citado na Bíblia, fazia parte de mim agora. Passeamos muito a pé pela capital, onde tive a oportunidade de fotografar o Monumento Al-Shaheed, também conhecido como Memorial dos Mártires, projetado pelo escultor iraquiano Ismail Fatah Al Turk em homenagem aos soldados iraquianos que morreram na Guerra Irã-Iraque. Depois visitei o Shabandar Café, uma das cafeterias mais antigas e famosas da cidade (localizada no final da rua al-Mutanabbi, uma rua que leva o nome de um poeta do século X e que serviu de refúgio para escritores de todas as religiões desde o século VIII – nesta cidade que viveu muitos cercos e invasões). Em Bagdá há também várias estátuas que remetem a Aladin, Ali Babá e os 40 ladrões, Sinbad, Kahramana… Contos das Mil e Uma Noites… Emocionei!

Nos dias subsequentes visitei a Babilônia. Fiquei encantada com a Porta de Ishtar, a oitava porta da cidade mesopotâmica da Babilônia, construída por volta de 575 a.C. por ordem do rei Nabucodonosor II no lado norte da cidade (a maior parte da porta original está no Museu de Pérgamo em Berlim). Cruzei a porta encrustada de magníficos azulejos azuis e fui recepcionada por um arqueólogo de extrema simpatia que me explicou as histórias de Ninrode, Marduque e Nabucodonosor II, todos personagens citados na Bíblia. Passei pelas pedras originais babilônicas, mas também pelas reconstruções feitas por Saddam Hussein (político e estadista iraquiano, que serviu como presidente do Iraque de 16 de julho de 1979 a 9 de abril de 2003), que aliás, reconstruiu muitas partes históricas de seu país.

Caminhei até o luxuoso Palácio de Verão de Saddam e de lá o arqueólogo sinalizou para onde acredita-se que no passado estava a Torre de Babel (conhecido mito bíblico que narra um episódio em que Deus promoveu confusão entre os seres humanos, estabelecendo diferentes línguas para os povos) e possivelmente os Jardins Suspensos, em frente ao palácio de Nabucodonosor (os jardins foram construídos pelo rei Nabucodonosor II no século VI a.C., como prova do amor que sentia pela sua esposa preferida, Amitis). Lembrando ainda que, dentre muitas histórias, o Iraque carrega a benção do Éden, que teria ocorrido nessa região.

De Bagdá, segui rumo ao sul do Iraque para Karbala, cidade sagrada para os muçulmanos Xiitas devido ao Imã Hussein ter morrido ali. Ao chegar ao check point da cidade (o Iraque tem muitos pontos destes onde ocorrem os controles de trânsito), as mulheres precisam obrigatoriamente vestir o chador (uma veste feminina que cobre o corpo todo com a exceção do rosto) e passar o dia todo com ele. Em Bagdá, por exemplo, não há necessidade de cobrir a cabeça ou usar roupas que cubram até os pulsos, porém Karbala e Najaf sim. 

Em Karbala, visitei a Mesquita do Imã Hussein e a de seu meio irmão Abbas (os xiitas reverenciam 12 Imãs). Dentro da mesquita, as mulheres entram por um lado e ficam separadas dos homens que fazem suas orações em outra parte. A mesquita é lotada de peregrinos e lá dentro até me confundiram com uma iraniana, sendo que as mulheres foram muito solícitas comigo.

No dia seguinte visitei Najaf, outra cidade sagrada. Ali se encontra o cemitério Wadi-al-Salam, considerado um dos maiores do mundo e, segundo a crença Xiita, onde Adão, Jó e Noé teriam sido enterrados. Ali muitos iraquianos fazem questão de enterrar seus mortos, principalmente pelo fato dos túmulos estarem próximos ao mausoléu do reverenciado Imam Ali, figura fundadora do Islã xiita. Na cidade encontramos também a Mesquita de Ali, primo de Maomé, onde segundo os xiitas este se encontra enterrado, enquanto que para os sunitas, o Iman Ali descansa em Masar-i-Sharif, no Afeganistão.

Segui rumo ao principal local de visita do Papa: a terra de Abraão, a famosa cidade de Ur dos Caldeus. Fico emocionada em falar… Lá está localizado o Zigurate de Ur, parte de um complexo de templos que servia como centro administrativo da cidade e era um santuário do deus lunar Sin, padroeiro de Ur, um complexo muito apreciado também por Agatha Christie em seus livros (as escavações em Ur serviram de cenário da obra “Assassino na Mesopotâmia”, um livro que dedicou aos seus “muitos amigos no Iraque e na Síria”).

No dia seguinte tive o prazer de visitar os Pântanos da Mesopotâmia, fazer um passeio de barco pelo Rio Eufrates e visitar as casas feitas de junco. Assim como no Afeganistão, encantei-me por uma doce menininha que ali conheci. Meiguíssima, sociável, aliás, o povo iraquiano é muito simpático! Nesse tour todo ainda tive o prazer de ver a belíssima Mesquita de Samara que, com sua torre Malwiya, já foi considerada a maior mesquita do mundo, um cone grande em espiral de 52 metros de altura e 33 metros de largura, com uma rampa também em espiral, confundida no passado com a Torre de Babel. Além disso, passei por Tikrit, cidade de Saladino (chefe militar curdo muçulmano que se tornou sultão do Egito e da Síria e liderou a oposição islâmica aos cruzados europeus no Levante) e Saddam Hussein, localizada a 170 km de Bagdá.

Visitei também, ao norte do país, a cidade de Mossul, onde fica o famoso túmulo do Profeta Jonas. Em árabe, NabiYunus se refere ao profeta Jonas (conhecido do episódio biblíco em que é engolido por uma baleia). A mesquita do profeta Jonas fica no monte das ruínas da cidade assíria de Nínive — datada de pelo menos 800 anos antes de Jesus Cristo e muito citada na Bíblia.

O Estado Islâmico foi muito agressivo com a cidade de Mossul e Hatra, na região de Nínive. Ainda hoje podemos ver muita destruição do período de 2014 quando os militantes do Estado Islâmico ordenaram que os fiéis se retirassem do local do santuário de Nabi Yunus, colocaram explosivos nas paredes internas e externas da mesquita e a explodiram, reduzindo-a a escombros na tentativa de transformar Mossul em uma cidade de religião única. Infelizmente parte do túmulo do Profeta foi destruído pelos extremistas por alegarem que ele era judeu. Aliás, o ISIS (sigla inglesa Islamic State of Iraq and Syria que representa o Estado Islâmico do Iraque e Síria) começou seus ataques no Iraque pelo norte, nesses locais. E foi em Mossul, na Mesquita Al Nuri, que Abu Bakhr Al Baghdadi, chefe do Estado Islâmico, apareceu em público uma única vez, sendo que a mesquita foi destruída durante confronto entre as forças do governo e o grupo extremista islâmico.

O mais curioso é que a presença de turistas nestas regiões é tão rara que os habitantes enlouquecem querendo tirar fotos com os raros aventureiros que aparecem por ali… quase não conseguia andar tamanho assédio!

Em suma, o Iraque é um país incrível, cheio de história, berço da civilização, tem muitos sítios arqueológicos tombados e é um local único. O Velho Testamento em ação!

COMO OBTER O VISTO, CHEGAR E TURISTAR PELO IRAQUE

Se você gostou do relato e ficou interessado (a) em conhecer o Iraque, saiba que o turismo no país só pode ser feito através de uma agência de viagem habilitada a solicitar o visto e ser a responsável (sponsor) da estadia do turista no país, por isso o passaporte do viajante fica retido pela agência até o final da viagem. Deixamos aqui o contato da agência de turismo Aknaf Alsawari responsável pela viagem da Kalynara. O proprietário da agência é o Ahmed e o seu contato é o Tel: +9647809237616.

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3 comentários em “Uma brasileira no Iraque”

  1. Que relato Fantástico fez Kalynara sobre sua viagem, tem q ter muita coragem e força de vontade para ir para países que são tão fechados para o turista, parabéns pela iniciativa e obrigada por nos mostrar um pouco desse país tão desconhecido por nós !

    1. Ficamos muito felizes em saber que a viagem da Kalynara conseguiu mostrar um pouco deste país desconhecido. Agradecemos sua leitura e esperamos que nosso conteúdo posso sempre inspirar os nossos leitores. Abraços!

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