Descobertas e histórias da capital da Geórgia


 Até pouco tempo atrás a única coisa que eu sabia sobre a Geórgia era que o país ficava muito longe e além disso a única georgiana que conheci na vida mora na Itália e não estava muito entusiasmada em voltar ao seu país de origem. Nada incomum já que muitos georgianos emigraram para países europeus em busca de melhores oportunidades. O que acontece é que nos últimos anos a Geórgia está despontando como um grande destino comercial e turístico e entrou na minha lista dos desejos depois que vi algumas fotos de suas belezas naturais e conheci pessoas que me inspiraram a conhecer esse país considerado um dos mais hospitaleiros do mundo.

E não é pra menos, reza a lenda entre os georgianos que quando Deus dividiu as terras entre os diversos países do mundo eles estavam muito ocupados à mesa em um grande banquete regado a muito vinho e comidas maravilhosas e acabaram chegando tarde para receber a parte que lhes cabia. Como tinham um bom álibi perante Deus, acabaram recebendo o melhor pedaço de terras, àquele que Deus havia reservado para ele próprio viver: a Georgia.

Lendas à parte, o país é mesmo uma grande descoberta de belezas naturais, um povo hospitaleiro, comidas elaboradas com ingredientes simples, saborosos e aromáticos de dar água na boca, o famoso vinho (vestígios de ânforas com vinho de mais de 8.000 anos foram descobertas na região) e a tranquilidade de um país considerado um dos mais seguros do mundo.

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Típica rua de moradores georgianos com as parreiras sempre presentes.

A capital do país é Tbilisi, fundada por volta do ano 450 na junção da Europa com a Ásia em uma importante rota comercial da seda. Ao longo dos séculos ela foi governada por persas, bizantinos, árabes e mongóis, além de ter sido uma das repúblicas da antiga União Soviética. O nome Tbilisi (Tifilis) significa quente e isso se deve à lenda do rei Vacktang que costumava caçar com seu falcão naquela área e um dia ao abater uma ave ela caiu em uma fonte de água quente e ficou cozida no chão. Impressionado com o fato o rei decidiu criar ali uma cidade.

Os roteiros pela Geórgia tem como porta de entrada a cidade portuária de Batumi, o balneário preferido dos russos que passam suas férias nas praias de águas claras da cidade, aproveitando a infraestrutura dos hotéis de cadeias internacionais e cassinos e evidentemente a capital Tbilisi que possui diversos voos diários diretos para grandes capitais europeias.

A minha chegada na Geórgia foi um pouco alternativa porque estava em Budapeste e a companhia Húngara Wizzair possui voos super econômicos para Kutaisi, a segunda maior cidade georgiana localizada ao norte do país. De lá partem os ônibus em horários específicos para a capital Tbilisi passando por cidades inusitadas no meio do caminho como Gori, a cidade natal de Josef Stalin, o ditador soviético mão de ferro que nada herdou da hospitalidade de seu povo.

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Horários de ônibus de Batumi, Kutaisi e Tbilisi.

Para conhecer a capital Tbilisi e aproveitar ao máximo os três dias disponíveis pelos arredores, comecei com um passeio de ônibus do tipo hop on, hop off que percorre os principais pontos turísticos da cidade em cerca de 2 horas ($75 lari). Partindo da Liberty Square com sua imponente estátua dourada o passeio segue em direção à estação de metro de Rustaveli, com seus cerca de 80 metros de profundidade, a avenida homônima onde encontramos diversos edifícios públicos em estilo soviético-europeu e uma enorme estátua de uma bicicleta representando a liberdade do povo georgiano com uma vista panorâmica da cidade. Muito bom lembrar que neste ano de 2018 o país está comemorando os seus 100 anos como pátria depois de estar sob o domínio soviético.

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Bicicleta representando a liberdade do povo georgiano.

O passeio segue pela praça dos heróis e seu monumento em homenagem aos caídos em batalha em busca da liberdade do país com uma vista linda para o circo e um dos diversos parques da cidade.

Seguindo pela avenida Marjanishvili (nome em homenagem ao famoso ator georgiano) encontramos os melhores restaurantes e hotéis em estilo europeu da capital, com destaque para o exclusivo Restaurante Barbarestan que serve pratos da culinária georgiana inspirados em um antigo livro de receitas de 1914 encontrado em um sebo da cidade e conservado em uma caixa como relíquia do local que muda seu menu de acordo com a estação do ano e a disponibilidade de ingredientes frescos (pratos a partir de $40 lari).

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Avenida Marjanishvili em estilo europeu, Tbilisi, Geórgia.

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Entrada restaurante Barbarestan em Tbilisi, Geórgia.

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Delicadeza da conta de um dos cafés na avenida Marjanishvili, Tbilisi, Geórgia.

O passeio segue à margem do Rio Mtkvari (que no idioma local se chama Kura e significa água boa que se purifica na montanha) com cerca de 1364 metros de longitude, o rio que nasce na Turquia atravessa a cidade de Tbilisi e deságua no Mar Cáspio.

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Vista do Rio Kura, Tbilisi, Geórgia

A parte antiga da cidade começa então a desvelar-se a partir do momento que passamos pelo mercado de pulgas na ponte seca com seus muitos artistas que vendem suas obras de arte (se quiser negociar é bom saber um pouco de russo ou georgiano) e em seguida avistamos a Fortaleza de Narikala e seu castelo no alto da colina. Para chegar lá no alto e visitar tanto a fortaleza, o castelo e a estátua da mãe Geórgia basta pegar o bondinho na rua Chonkadze que custa mero $ 1 lari.

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Mercado das Pulgas que acontece aos sábados na ponte seca em Tbilisi, Geórgia.

Depois de aventurar-se pelo alto da colina nada mais justo que relaxar-se nas águas sulfurosas que deram origem à cidade. O Chreli Abano é a mesquita árabe localizada ao lado das fontes sulforosas, ali há opções de banheiras termais e tratamentos de massagem (pacotes em banheiras privativas a partir de $ 40 lari por pessoa). Para quem prefere os banhos públicos a entrada custa apenas $3 lari, porém ali os banhos são coletivos em banheiros separados por sexo onde uma mangueira jorra água sulfurosa aquecida. Os tratamentos sulfurosos tem a fama de fazer bem para a pele, curar males dos ossos, diabetes, etc, e por isso muitos idosos procuram os banhos públicos para melhorar seus males. Dentro dos banhos há guarda-volumes para deixar os pertences, basta pedir para a senhora que cuida do local trancar o cadeado e entrar no banho de 1 hora, assim que termina basta chamar ela para abrir o guarda-volumes. Uma dica é levar toalha, chinelo, creme esfoliante e xampu ou então dá para comprar lá mesmo antes de entrar. Além disso é preciso tirar todas as joias e bijoux para não escurecer com a ação do súlfur.

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Banhos sulfurosos e mesquita árabe em Tbilisi, Geórgia.

Andando um pouco mais atrás da mesquita por um caminho de madeira dá para visitar uma pequena cascata e fazer algumas das fotos mais lindas desta parte antiga da cidade.

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Tbilisi possui diversas intervenções artísticas em cada cantinho.

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Cascata no centro antigo de Tbilisi atrás da mesquita árabe.

Ali mesmo nas imediações dos banhos sulforosos encontramos também uma linda cascata atrás da mesquita, o Parque Rike e a ponte da amizade projetada em forma de um casco de tartaruga pelo arquiteto italiano Michele De Lucchi o qual também projetou o Palácio da Justiça da cidade com onze cogumelos no topo do edifício representando as regiões do país. A ponte fica iluminada à partir das 19:00 até o amanhecer e é um dos principais atrativos por estar localizada próxima à Praça Vakhtang Gorgasali tendo como pano de fundo do lado leste do rio a Catedral da Santa Trindade no alto da colina Elia em Avlabari. Esta praça também abriga o Bazar Meidan, considerado um dos mais antigos centros comerciais do Cáucaso, um ponto central do antigo distrito de Kala que desde os séculos IV e V serviu como ponto de encontro de armênios, gregos, tártaros, persas, indianos, moscovitas e europeus.

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Ponte da Amizade e Bondinho, Tbilisi, Geórgia.

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Catedral Ortodoxa Trinity, Tbilisi, Geórgia

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No Bazar Meidan é possível jogar gamão e xadrez, esportes nacionais muito apreciados na Geórgia.

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Mercado de tapetes no centro de Tbilisi, Geórgia.

Os arredores da Praça Gorgasali concentram diversos restaurantes e discotecas à beira do rio, além de algumas obras de arte ao ar livre como a intrigante árvore de Monavardisashvili feita com ferros em formato de fogão, chaves e luminárias e a réplica da Tamada (o mestre do brinde do vinho) uma pequenina estátua em bronze do séc XVII (a original encontra-se no museu nacional da Geórgia que fica logo em frente à estátua).

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Árvore de Monavardisashvili, Tbilisi, Geórgia

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Réplica da Tamada com seu bebedor de vinho em chifre de boi, Tbilisi, Geórgia

A estátua de um homem de estatura baixa brindando com um chifre de animal foi encontrada em escavações e demonstra a tradição georgiana proveniente de séculos atrás ainda hoje cultivada no país, pois além de produzir vinhos há séculos de maneira artesanal enterrando as ânforas de cerâmicas cheias da bebida, eles ainda utilizam chifres de animais, potes ou qualquer outro tipo de cálice para degustar suas grandes criações.

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Na Geórgia se não tem taça ou copo o vinho se bebe na tigela ou no chifre de boi mesmo.

Outra atração da capital georgiana é o metro, construído no período soviético e muito característico com estações com mais de 80 metros de profundidade, um passeio a parte para quem quer sentir um pouco de vertigem ao descer uma escada rolante enorme e vertiginosa. Para usar o metro basta comprar um cartão que custa $ 2 lari nos guichês de entrada das estações, os quais são convertidos em passagens. O bilhete individual que dá direito a uma viagem em toda a rede do metro custa apenas $1 lari e as principais atrações da cidade encontram-se nas estações: Liberty Square de onde partem os passeios turísticos, Marjanishvili, a porta de entrada para a rua homônima com bares e restaurantes abertos 24 horas por dia e a Avlabari, estação mais próxima à praça Gorgasali e ponto de partida das tradicionais Marshrutkas, as vans compartilhadas que levam para todos os cantos da região, inclusive para o país vizinho Armênia.

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Estação de metro de Avlabari e as tradicionais Marshrutkas (vans coletivas)

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Cartão do metro com o símbolo comemorativo dos 100 anos do país independente.

Figuras Importantes da Geórgia:

  1. Rainha Tamar foi responsável em unir a Geórgia nesta região do Cáucaso. Ela fazia parte da Dinastia Bagrationi, foi rainha da Geórgia de 1184 até 1213 e a primeira mulher a governar o país por direito próprio presidindo a “era dourada” da monarquia medieval georgiana. Além de ser considerada uma heroína nacional, foi canonizada pela igreja ortodoxa.
  2. Além da rainha Tamar outra figura feminina é considerada uma grande inspiradora nacional, a jogadora de xadrez Nona Gaprindashvili que foi cinco vezes campeã mundial em olimpíadas e inspirou milhares de jogadores pelo mundo, transformando o esporte num dos ícones da Geórgia que é um dos grandes competidores internacionais.
  3. Rei David, possui uma estátua em sua homenagem na entrada de Tbilisi por ter sido o grande construtor do país e hoje existe até uma fundação nacional que concede prêmios aos melhores arquitetos.
  4. Além da produção de vinhos, o país destaca-se mundialmente pela exportação de grandes artistas e estilistas como Demna Gvasalia os quais vem revolucionado o mundo da moda internacional trabalhando com marcas famosas como Balenciaga e evidenciando a cidade de Tbilisi como um pólo inovador da moda.

Como se comunicar na Geórgia: tanto o idioma como o alfabeto georgiano fazem parte de um grupo único no mundo e são incompreensíveis para nós meros visitantes. O alfabeto parece mais um tipo de desenho e o som das palavras soam bastante complicados. A parte boa da história é que a grande maioria dos georgianos fala perfeitamente o inglês e o russo, além do mais todas as placas e informativos são traduzidos nestes idiomas. Em todo caso com um pouco de esforço dá para aprender algumas palavrinhas para agradecer e ser gentil diante da hospitalidade dos georgianos.

Gamarjoba – Olá

Nakhvamdis – Tchau

Madloba – Obrigado

Gtkhov – Por favor

Me Mqvia – Me chamo

Aq Gaacheret – Por favor pare aqui

Me Mikvars… – Eu amo

Onde ficar em Tbilisi: a rede hoteleira da cidade é bem diversificada e depende muito do bolso do viajante, há muitas famílias que alugam quartos e apartamentos pelo Airbnb, além de hotéis internacionais de rede e cassinos  (Radisson, Ambassador). Nesta viagem me hospedei no Hotel Window que é simples mas muito aconchegante e fica numa ótima localização a poucas quadras da estação Marjanishvili e seus restaurantes e cafés abertos 24 horas. Além dele no último dia passei uma noite no Hotel Vazi a poucos metros da estação de metro Avlabari, com suas acomodações bem simples porém com um atendimento maravilhoso de uma família de georgianos que fazem o possível para que os hóspedes se sintam em casa e possam provar um verdadeiro café-da-manhã no estilo banquete georgiano servido até o meio dia.

O que comer: a culinária georgiana é muito saborosa e utiliza ingredientes simples produzidos de maneira artesanal como os pães, queijos e o mel. O Khachapuri adjaruli é uma espécie de esfiha aberta recheada com queijo e no meio dela sempre encontramos uma gema de ovo cozida (uma delícia), o Khinkali é o símbolo do país e consiste em uma massa recheada com carne mista (gado e porco) em formato de uma trouxinha, churrasquinhos, além de outros pratos preparados com berinjela, pimentões, arroz e é claro, tudo acompanhado com um bom vinho georgiano.

Além destes pratos deliciosos é notável em quase todas as barracas de doces e supermercados da cidade a figura onipresente das Churchkhelas feitas com tipos diversos de castanhas colocadas uma a uma em um fio de linha e depois banhadas em um mosto de uvas. Elas são feitas artesanalmente e são o xodó dos turistas para presentear os amigos e familiares.

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Kinkhali, Khachapuri e churrsaco de vitelo na Geórgia.

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Café-da-manhã georgiano em sentido horário: queijo fresco, uma espécie de torrone doce, cogumelos com maionese e fígado de galinha temperado.

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As famosas Churchkhelas de castanhas e mosto de uvas, Bazar Meidan, Tbilisi, Geórgia.

Quando ir: os meses de maio e junho costumam ser mais frescos e chuvosos, enquanto que nos meses de julho a setembro o calor é evidente e nos demais meses faz bastante frio com muita neve nos meses de Dezembro a Fevereiro.

Como se locomover: os principais atrativos da cidade encontram-se em áreas de fácil acesso e digamos que a maneira mais econômica de locomover-se é utilizando o metro que custa apenas $1 lari o trecho. Os táxis não usam taxímetro por isso é imprescindível perguntar o valor antes de entrar neles, pois uma corrida normal nas áreas centrais da cidade não custam mais de $ 5 lari e do centro ao aeroporto $ 25-30 lari ( 17 km). Existe a opção de ônibus público porém os destinos estão escritos somente em georgiano o que torna a tarefa quase impossível para os visitantes.

Moeda Local: Lari (1US$ = $ 2,45 laris). Os estabelecimentos aceitam somente a moeda local e cartões de crédito de bandeiras internacionais. Há diversos caixas eletrônicos espalhados pela cidade  além de casas de cambio.

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2 Respostas para “Descobertas e histórias da capital da Geórgia

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