Um pedacinho francês além-mar


A ideia principal ao planejar esta viagem ao Canadá era começar o roteiro por Montreal, no entanto como tinha uma conexão em Ottawa decidi mudar um pouquinho os planos e acabei seguindo a viagem de ônibus com a Greyhound (Ottawa-Montreal em uma viagem super tranquila de cerca de 2,5 horas que me custou  CA$ 25). Ao chegar em Montreal, desci na estação Berri UQAM que é a mesma da rodoviária e segui diretamente até a estação  Lucien-L’Allier onde fica o Hostel de la Jeunesse (Rue Mackay 1030), um albergue da rede hostelling que além de estar muito bem localizado na área universitária e mais movimentada da cidade ainda tem opções de acomodações fantásticas com banheiro privativo nos apartamentos, um barzinho super descolado onde a galera se encontra todas as noites para compartilhar seus planos de viagem e ainda de quebra opções de passeios em grupo para quem quer aproveitar os arredores da cidade.

Logo no primeiro dia aproveitei para conhecer a Vieux-Montreal (cidade antiga) que é sem dúvida uma das melhores atrações da cidade. Já no caminho do albergue até o centro antigo foi possível observar a forte influência da imigração e da religião na vida dos colonizadores que por ali chegaram há muitos séculos e transmitiram na arquitetura local um pedaço de suas origens além-mar. Ao longo de uma única avenida encontram-se: a Basílica de Notre-Dame em estilo neogótico e o maior lugar de prática religiosa da América do Norte na época de sua construção (entrada CA$ 10 e inclui uma visita guiada de 20 minutos em inglês, oferecida duas vezes por hora), a Igreja de St. Patricks (entrada gratuita) construída pelos primeiros imigrantes irlandeses e a Igreja de St. George (entrada gratuita) pertencente aos fiéis ingleses anglicanos. Ali dá para sentir perfeitamente um certo ar europeu e a sua principal característica bilíngue (a cidade faz parte da província francesa de Quebec e o idioma mais ouvido pelas ruas e até mesmo nas placas indicativas é o francês), além é claro dos diversos restaurantes, pubs, bistrôs e a arquitetura que remetem às suas fortes origens francesas. E para fechar com chave de ouro o dia um passeio a beira do lago no velho cais do porto de Montreal com uma vista mais que privilegiada.

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Basílica de Notre-Dame

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Igreja de St. George

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Interior da Igreja de St. Patricks

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Recortes de imagens da região do antigo porto de Montreal

A cidade de Montreal também foi sede das olimpíadas em 1976 e o seu Parque Olímpico com o Biodôme (entrada CA$ 20 adultos e CA$ 10 crianças), uma cúpula de vidro que recria um ambiente natural com diversas espécies de plantas e animais de várias partes do mundo são um dos seus grandes atrativos. Vou ser sincera em dizer que não sou muito fã de ambientes fechados e recriados artificialmente e por isso nem fiz questão de entrar, até porque acabei encontrando uma família de brasileiros no caminho e fui convencida a ir diretamente ao Monte Real e aproveitar a natureza em uma tarde de sol rara naquela época do ano (setembro).

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Parque Olímpico de Montreal

Acredito que para os entusiastas dos jogos deve até ser bem interessante a visita interna ao complexo de concreto, mas naquele dia ao chegar no Monte Real tive a certeza de ter feito uma ótima escolha, pois já na saída da estação de metrô encontrei uma escultura de arte em forma de ba-nana muito simpática para uma sonequinha antes de começar a cansativa subida até o Monte onde fica o oratório e uma das vistas mais fantásticas da cidade no alto dos seus 234 metros.

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Banco em forma de Ba-nana

O parque de Monte Real também é digno de um descompromissado passeio de bike e até mesmo um piquenique no verão ou uma patinação no gelo no lago Beaver no inverno, mas como meu tempo era bem curto tive que me consolar com uma horinha de repouso na grama e ao entardecer voltei para aproveitar a festa eletrônica que estava sendo organizada próxima à rua St. Catherine onde concentram-se a maior parte das lojas da cidade e bem ao lado do Palácio de Belas Artes e das respectivas universidades Concordia e Mc Gill, o que significa uma alta concentração de jovens, consumistas e intelectuais e um clima super descontraído que de nada fazia lembrar a séria, cinza e pacata capital Ottawa.

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Parque de Monte Real.

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Museu de Belas Artes de Montreal.

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Praça de artes ao lado do museu.

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Festival de verão de música eletrônica próximo à Avenida St. Catherine.

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Placas indicativas das estações de metrô e entradas para as galerias subterrâneas de Montreal.

O terceiro dia da viagem foi dedicado a conhecer a capital da província Quebec em uma excursão bem interessante com a Take Tours com um grupo de chineses e uma guia muito divertida chamada Luiza. Confesso que ao comprar o passeio online e ler alguns dos comentários fiquei um pouco apreensiva, no entanto o custo do passeio de dia inteiro que incluía a visita às cataratas de Montmorency e Quebec era simplesmente imperdível (CAD$ 39).

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Ônibus da excursão a Quebec com a Take Tours.

O ponto de encontro para o início do passeio era a 99 Viger Ave no bairro chinês e no horário indicado estávamos todos já dentro do ônibus recebendo as primeiras informações da nossa guia fluente em mandarim e muito precisa em suas explicações em inglês. A 10 quilômetros de Quebec fizemos a primeira parada em Montmorency Falls, as cataratas de 83 metros de altura localizadas no rio Montmorency que assim como as Cataratas do Niagara são atrativos muito famosos do país. As quedas ficam no parque homônimo e logo na entrada é possível escolher o tipo de entrada: o visitante pode comprar o bilhete com direito a subir e descer do alto das quedas de bondinho ou a pé. De ambas as formas a visita tem como objetivo chegar próximo às quedas no alto da montanha e aproveitar a tranquilidade do parque com áreas verdes no verão, um restaurante com vista das cataratas e, para os mais aventureiros, a possibilidade de fazer escalada na neve durante o inverno quando as quedas ficam congeladas.

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Cataratas de Montmorency com o arco-íris dando o ar da graça numa manhã de sol em Setembro.

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Cataratas de Montmorency congeladas no período de inverno.

Depois de uma hora de visita à Montmorency seguimos o passeio com direito ao almoço bufê em um restaurante à beira da estrada e seguimos para o Observatoire de la Capitale (Edifice Marie-Guyart | 1037, rue De La Chevrotiere, 31st floor,Quebec), um ponto de observação  localizado no alto de um prédio comercial a poucas quadras da Grand Allée com uma vista panorâmica de 360º e opções de vídeos interativos com detalhes curiosos da história da cidade, narrados em primeira pessoa por atores que simulam personagens históricos quebecoises.

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Vista panorâmica da parte mais moderna de Quebec.

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Poltrona em forma de cápsula com vídeos interativos, no detalhe Joe Malone um dos maiores campeões canadenses de Hockey no gelo.

A visita em si não teve nada de excepcional, no entanto fiquei impressionada ao ver um mural com desenhos de crianças entre 4-10 anos e perceber que mesmo vivendo em um país de primeiro mundo repleto de belezas elas tem uma maneira sombria de retratar a “ville” (não me deixa mentir o desenho abaixo com cenas de uma guerra que talvez elas nunca tiveram a oportunidade de presenciar). Esta triste constatação veio muito a calhar naquele momento quando as manchetes dos principais jornais mundiais estampavam a foto do menino sírio Aylan Kurdi encontrado sem vida em uma praia grega depois de sua família, patrocinada por uma tia residente no Canadá, ter o pedido de asilo negado e empreitado uma fuga mal sucedida em busca de um lugar seguro para viver. A questão do dia estava mais para os caminhos tortuosos que a humanidade insiste em trilhar neste planeta mesmo já tendo vivido tantas guerras e tragédias, inclusive nestas bandas da América do Norte onde no passado a paz nem sempre costumava reinar.

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Desenhos de crianças quebecoises representando a história da cidade.

E foi em tempos de guerra que ocorreram grandes encontros em Quebec no famoso Chateau Frontenac, o hotel-castelo mais famoso do país construído em 1893 pela Canadian Pacific Railway para incentivar o turismo de luxo com um total de 650 quartos, cerca de 77 metros de altura e uma vista espetacular em seu terraço de muitos quilômetros do rio São Lourenço. Localizado bem próximo ao centro de Quebec, o hotel já foi palco de decisões importantes de algumas personalidades durante a segunda guerra mundial como Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados UnidosWinston Churchillprimeiro-ministro do Reino Unido, e William Lyon Mackenzie King, primeiro-ministro do Canadá que reuniram-se na cidade para discutir o rumo da guerra sendo os únicos hóspedes permitidos no hotel na ocasião por questões de segurança.

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Chateau Frontenac

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Saguão de entrada do Chateau Frontenac

A cidade antiga de Quebec é dividida em Haute Ville (cidade alta) onde encontra-se o Chateau Frontenac, o Terrase Dufferin e seu calçadão com vista para o rio São Lourenço , a Catedral de Notre Dame, além de diversas lojas, restaurantes e cafés no mais tradicional estilo francês, enquanto que na Basse Ville (baixa cidade) está a Place Royale (o marco zero da cidade) e o   bairro Petit Champlain que desde 1985 transformou-se em um refúgio de jovens artistas que tem como principal objetivo manter, melhorar e propagar o produto cultural e comercial das lojas que se distinguem pela originalidade, diversidade e predominância de criações artísticas locais. Ali numa viela toda estilosa é possível encontrar desde o mercado de frutas como diversos restaurantes, creperias com um aroma todo especial do xarope de mapple (aquele feito com a seiva da árvore símbolo do país com as folhas de três pontas), galerias de artes, monumentos, arte indígena Inuit e até mesmo uma fábrica de vidros que se assemelha muito à de Murano na Itália.

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Vista do Petit Champlain

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Atividades culturais são o ponto alto no Petit Champlain.

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Crepes de dar água na boca.

E foi neste cenário com uma vista maravilhosa do rio São Lourenço e duas horas livres para passear que a divertida guia deixou o grupo descobrir os arredores de Quebec antes de empreender as 2,5 horas de viagem de retorno a Montreal.

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A última manhã em Montreal foi dedicada a procurar a estação central de trens para comprar meu bilhete e seguir viagem até Toronto. O que parecia uma tarefa fácil levou horas porque decidi entrar em uma galeria subterrânea da cidade e depois de caminhar quilômetros pelos seus labirintos acabei chegando na Gare Windsor, a antiga estação de trens construída em 1889 e única no seu gênero que recorda toda a história antiga de partidas e chegadas de milhares de pessoas em Montreal.

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Gare de Windsor

Apesar de não ser a estação atual de trens valeu a pena conhecer as suas galerias e o seu salão principal, um espaço enorme com jardins, raras salas de recepção e espaços de eventos para até 5 mil pessoas. Depois desta façanha finalmente consegui comprar meu bilhete e 5 horas depois já estava chegando em Toronto, a última etapa da viagem, mas esta história fica para a próxima…

Você pode gostar também de: uma noite na prisão em Ottawa

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Uma resposta para “Um pedacinho francês além-mar

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