Albânia: um dia em terra de cachorro-louco


Depois de um certo tempo distante aqui do blog devido a um problema técnico com meu computador, eis que torno com algumas novidades e descobertas dos últimos meses. E a mais interessante delas foi certamente a visita à Albânia, um país que intrigou meu imaginário desde os tempos de colegial quando ouvi falar pela primeira vez nos noticiários da sangrenta e dramática guerra do Kosovo que destruiu a vida de milhares de famílias Albanesas e Sérvias.

A tal guerra, que na época para mim era só mais um dos grandes temas previstos para o vestibular, foi um conflito armado no Kosovo, uma província autônoma da Sérvia que era povoada em sua maioria por cidadãos da etnia albanesa. Muito além dos conflitos desta guerra, a Albânia ainda viveu uma ditadura implantada depois da Segunda Guerra pelo ditador Enver Hoxha que governou o país até 1991 e consagrou-se como um dos cachorros-loucos da história recente, perseguindo e torturando os seus opositores, proibindo a saída dos albaneses do país e a entrada de turistas estrangeiros, implantando regras religiosas como o uso da barba (um ícone ortodoxo e muçulmano), além de vetar o uso da TV a cores, máquina de escrever e construir milhares de cogumelos de concreto que se tornaram símbolos da sua paranoia para evitar uma suposta invasão por parte da Iugoslávia.

A guerra e a ditadra de Hoxha acabaram, mas por onde quer se vá ainda são visíveis as cicatrizes do passado deste país que, apesar de ter praias lindíssimas de águas cristalinas banhadas pelo Mar Adriático, não é nem de longe um destino estampado nas capas de revistas turísticas mundiais, isso porque o seu potencial turístico e as suas belezas naturais ainda estão aquém à má fama do país associada à corrupção, criminalidade, vingança de sangue e a real falta de estrutura.

Ao andar pelas ruas de muitas cidades albanesas nem sonhe em encontrar uma placa indicando nomes de ruas ou grandes construções e monumentos em perfeito estado de conservação, no entanto antes de sair por aí lamentando-se que este não é o melhor lugar do mundo para visitar lembre-se que a Albânia é um dos países mais pobres da Europa e apesar de todas as histórias macabras que os filmes e os livros de histórias te contaram ainda vale muito a pena deixar de lado o preconceito e aproveitar o pedacinho da “Riviera Albanesa” que vai de Sarande até Dhërmi e esbaldar-se nas suas praias de águas cristalinas praticamente desertas e cercadas por montanhas altíssimas. Sem contar que os albaneses, apesar da má fama perpetuada por muitos anos, são pessoas muito simpáticas, curiosas e tratam muito bem os turistas, além do mais a comida é muito boa, os hotéis geralmente limpos e o mais importante: super baratos.

Sarande

Vista do Porto de Sarande

A minha experiência em terras albanesas começou em Sarande, uma cidade a beira mar que foi fundada no Século VI a.C. e carrega o mesmo nome do monastério bizantino dedicado aos quarenta mártires de Sebastião, os quais foram perseguidos e executados por professarem a fé cristã.

Um passeio de meio dia pela cidade é suficiente para conhecer os principais atrativos como : a sinagoga bizantina do Século V, o Museu de Sarande com sua coleção de mosaicos e vestígios arqueológicos, a Universidade de Tirana e a vista panorâmica do Castelo de Lëkurësi de onde é possível avistar a vizinha ilha grega de Corfú e o lago de Butrint.

Vista do Castelo

Vista do Castelo de Lekuresi

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Vista panorâmica de Sarande

Outro passeio muito interessante para fazer é a rota de 40 minutos que liga Sarande a Gjirokastër na Rivieira Bistrica e aproveitar para visitar o Monastério Mesopotâmia com sua catedral em estilo ortodoxo inacabada e o Syri i Kaltër (nome em albanês que significa olho azul), a nascente mais rica do país situada ao pé do Monte Mali i Gjerë que brota do fundo da rocha calcária em vários tons de azul a uma temperatura de 12,75 °C.

Siri i Kalter

Siri i Kalter

Os pesquisadores ainda não calcularam a real profundidade desta nascente, mas os visitantes mais audaciosos podem até dar um mergulho em suas águas cristalinas para refrescar-se nos dias quentes de verão. Eu vou sincera em dizer que não tive coragem de entrar na água porque é realmente fria e mesmo com toda aquela beleza me contentei somente em molhar as mãos e tirar um montão de fotos porque sinceramente este foi um dos lugares mais lindos e tranquilos que visitei nos últimos tempos.

A visita à nascente é realmente imperdível principalmente para os amantes da natureza, já que para chegar até lá há uma pequena trilha repleta de árvores, pássaros e lindas libélulas em tons de azul turquesa que aproveitam a tranquilidade do local para repousar e fazer suas revoadas à beira do rio (táxi do centro de Sarande custa € 15,00) .

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Já Gjirokastër que fica mais ao Norte de Sarande é a terra natal dos dois albaneses mais famosos de todos os tempos: o ditador Enver Hoxha e o escritor Ismail Kadare – autor do livro Abril Despedaçado, que inspirou o filme homônimo interpretado pelo nosso ator brasileiro Rodrigo Santoro. Esta pequena cidade parada no tempo possui vistas espetaculares das montanhas albanesas e abriga o castelo homônimo que é simplesmente imperdível.
Um pouco mais ao Sul de Sarande fica Butrint (também chamada de Buthrotum), um local tombado como patrimônio mundial pela UNESCO, onde encontram-se alguns vestígios gregos, romanos, bizantinos e venezianos que contam a história das antigas cidades desta região. Segundo os relatos históricos, Butrint foi fundada no Século X a.C. como colônia grega, sendo dominada em seguida pelos romanos, quando alcançou o auge de sua prosperidade, e logo em seguida o seu declínio com o domínio veneziano e seu completo abandono durante a Idade Média. Já uma famosa lenda local diz que Butrint foi fundada por Hélénos, o filho do rei Priam de Tróia, irmão gêmeo de Cassandra (sacerdotisa do templo de Apolo que tinha o dom da premonição). O espertinho do Hélénos, depois de aportar na ilha vizinha de Corfú, resolveu sacrificar um touro em honra a Apolo, um dos Deuses protetores de Troia. No entanto o touro ferido, mais esperto que ele, acabou escapando, conseguiu atravessar o mar a nado e acabou morrendo do outro lado do continente onde a sua carcaça foi novamente encontrada por Hélénos que, pensando ser este um sinal do destino, resolveu construir uma « Mini Tróia » a qual batizou de “Voutrotos” (o touro ferido em grego).

Campos de Pastoreio

Campos de Pastoreio

Depois de uma breve passagem por este país super simpático e acolhedor tive a certeza de que meu sonho em pôr os pés na Albânia ao menos uma vez na vida não foi em vão e queria deixar registrado aqui que em breve voltarei para conhecer um pouco mais deste país que de cachorro louco só tem o pobre cãozinho que entre um turista e outro insiste em proteger o rebanho e o túmulo do seu falecido dono.

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Como Chegar: há opções de voos de muitas cidades europeias para a Albânia, mas a melhor maneira de visitar o país certamente é combiná-lo com uma viagem à Grécia ou Itália e pegar um barco para chegar às principais cidades do país.

Onde Ficar: não há muitas opções de hotéis nas cidades e poucos deles possuem sites, mas uma boa dica é fazer uma busca no http://www.albania-hotel.com.

O que comer: um lanchinho rápido na Albânia é sinônimo de Burek, um sanduíche feito de uma massa folhada leve e recheado com queijo, espinafre ou carne (a escolha do cliente que custa apenas € 0,50).

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Tradicionais “Burek”

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