As belezas e os sabores do Chile


Depois de perder o voo em Cancun, esperar 6 horas no aeroporto, mudar o itinerário, fazer conexão em Lima, eis que chego bem cedinho em Santiago em meio a um nevoeiro e um frio de doer. Digamos que depois de vários dias de sol, mar e calor foi bem difícil a minha chegada, no entanto tudo isso havia sido planejado e para quem queria conhecer a neve o frio fazia parte da tarefa para chegar no alto dos Andes.

1o Dia – Santiago

O percurso do aeroporto até o hostel durou apenas alguns minutos e me custou $18.000 pesos chilenos; os zeros da moeda aumentaram e muito e em conseqüência de tudo isso minha cachola não conseguia sequer fazer uma simples conta matemática para saber quando aquilo representava em reais. Apesar de chegar com um dia de atraso, a minha reserva no Hostal Romandia ainda estava ativa e a recepção não podia ter sido melhor. A começar pela Ivone a responsável da casa naquele dia que, depois de mostrar as instalações, me ofereceu um delicioso café-da-manhã e ainda me deu várias dicas para os passeios que eu queria fazer nos próximos dias.

Hostel Romandia

O hostal foi sem sombra de dúvidas um dos melhores que já utilizei, tem televisão no quarto, aquecedor, um pequeno lavabo, wi-fi e uma decoração de extremo bom gosto. Sem contar que fica no bairro Providencia, um dos melhores da cidade onde tudo parece ser muito europeu.

A história deste bairro data de 1897 e associa-se as irmãs da Divina providência que chegaram neste lugar em 1853 vindas do Canadá. A princípio elas iriam para Oregon nos Estados Unidos, mas devido a uma inundação não puderam voltar a sua pátria e acabaram encontrando o comandante de um navio chileno que as trouxe para este remoto canto do mundo onde elas se erradicaram. Hoje a região é uma área importante de comércio e gastronomia da cidade.

Depois de dormir algumas horas, caminhei algumas quadras até chegar ao metrô e fui para a estação Los Leones de onde sai o ônibus de turismo ($19.000 pesos) que faz o passeio completo em 2 horas e passa pelos principais pontos turísticos da cidade.

Mesmo com o frio de rachar, decidi descer no Bairro Bela Vista e visitar a Fundação Museu Chascona de Pablo Neruda, a casa que o poeta construiu para esconder seu caso amoroso com Matilda, a qual mais tarde seria a sua terceira esposa. O nome Chascona foi uma homenagem, ou porque não dizer uma chacota, para os cabelos bagunçados da sua amante com quem o poeta se encontrava com frequência. Infelizmente no interior da casa esta proibido tirar fotos, mas o que posso adiantar é que, como todo artista, sua vida parecia ser bem turbulenta e ele tinha um caso de amor com o mar, não é a toa que ele comprou também uma casa em Valparaíso onde escreveu grande parte de seus poemas, esta casa por sua vez se chama Sebastiana, e você já deve imaginar porque.

Depois de visitar a Chiascona, subi o monte San Cristobal que faz parte do Parque Cerro Bella Vista, localizado a 860 metros acima do nível do mar. Com a ajuda de um bondinho  que custa $1.800 pesos ida e volta é possível subir até o topo onde encontra-se a Catedral de Nossa Senhora da Concepción, a padroeira da cidade e, naquele dia contentar-me com a vista da cidade encoberta pelo nevoeiro característico da região dos Andes no inverno.

Continuando o passeio, desci na Praça de Armas, o verdadeiro coração da cidade onde encontram-se a Catedral metropolitana, o correio central, a casa colorada, o Palácio de la real audiência e o Museu histórico nacional. A praça estava super lotada por ser um domingo e ainda dia das mães e, mesmo com o frio, várias pessoas caminhavam pelas ruas com ramalhetes de flores e bolos para presentear as suas queridas mamães.

Andando algumas quadras adiante cheguei ao Mercado Central, o qual inicialmente foi projetado para ser um centro de exposições de artistas nacionais até que, em 1872, o presidente Federico Errazuriz Zanaert resolveu inaugurar o local de estilo neoclássico como mercado. Atualmente o local é considerado uma vitrine especial dos produtos do mar chileno. No centro do mercado as marisquerias preparam pratos típicos da culinária chilena, incluindo os deliciosos caldos de mariscos.

Com o clima propício, nada melhor que experimentar a delícia, não antes de levar uma pequena jóia feita de lapiz lazuli, a pedra produzida no norte do país, tipicamente encontrada somente no Chile e no Afeganistão, em venda no quiosque dentro do mercado.

Depois deste dia de descobertas, voltei tremendo de frio para o hostel mas pelo caminho a sensação de ver as folhas secas caindo ao chão me trouxeram um sentimento de renascimento natural que só o inverno é capaz de proporcionar na natureza.

2o Dia – Valparaíso e Viña Del Mar

Logo bem cedinho o Francisco, o motorista da empresa Turistik, estava na porta do hostel esperando para me levar ao Parque Arauco de onde saem os ônibus para o passeio de Valparaíso e Viña Del Mar.

Ao iniciar o passeio, primeiramente descobri que a média anual da temperatura no Chile são cerca de 14oC, (o que justifica todo o meu frio no dia anterior) e o país está encravado na Cordilheira dos Andes que começa na Venezuela e estende-se por cerca de 9000Km, sendo que 4500Km destes fazem parte do território chileno. Além disso, as cordilheiras são uma fronteira natural com a Argentina e os bairros de Santiago mais próximos destas são os de classe média alta, uma herança classista dos conquistadores espanhóis.

O Chile possui mais de 3000 vulcões espalhados por suas cordilheiras e debaixo do mar e por essa razão o país possui a maior jazida de cobre e ouro do mundo, além de ser um grande produtor de vinhos.

Os brasileiros são os maiores responsáveis pelo turismo no Chile e todos os anos lotam as estações de ski que abrem suas portas e suas pistas no inicio do mês de Junho, quando a neve cobre grande parte dos cumes da Cordilheira.

Ao longo do caminho de Santiago em direção a Valparaíso passamos pelo Vale de Casablanca, muito conhecido pela produção de seus vinhos brancos e detalhe: uma região extremamente seca que levou 15 anos para produzir a primeira garrafa de vinho; pelas minas de cobre onde o minério de alta qualidade é extraído para a fabricação de baterias de celulares; pelas terras onde passa o Rio Mapocho, um rio que nasce na Cordilheira, desaparece nas profundezas subterrâneas do Vale Uracavi e reaparece na sua foz próximo a Valparaíso.

E neste ponto da viagem chegou o grande momento de descobrir os segredos dos vinhos chilenos que são produzidos principalmente no Vale Maipo e Casablanca. Segundo as dicas do guia:

1o: a melhor colheita de vinhos no Chile nos últimos anos foi em 2007, porque naquele ano houve um grande período de seca, portanto não hesite em escolher uma garrafa produzida naquele ano.

2o : o melhor lugar para comprar uma garrafa de vinho no Chile é no supermercado, sendo que qualquer vinho acima de US$ 5 pode ser considerado de boa qualidade.

3o : a praga da filoxera não chegou aos parreirais chilenos e por isso o pais é um grande produtor de vinhos Cabernet.

4o : Os melhores vinhos tintos são produzidos no Vale Maipo e os melhores vinhos brancos no Vale Casablanca.

Depois dessa dicas fica fácil a escolha do melhor vinho Chileno: Cabernet, 2007, Vale Maipo, US$10, não é demais essa história de enologia?

Bem, passado o Vale e os vinhedos, eis que chegamos em Valparaíso, a cidade que em 1544 foi nomeada pelos espanhóis de porto natural de Santiago. Em várias oportunidades a cidade sofreu com fortes terremotos, sendo que o último ocorreu em 2012, quando a Igreja dos 12 Apóstolos foi bastante afetada.

A cidade de Valparaíso é formada por 45 morros onde convivem ricos e pobres em uma harmonia de cores e estilos arquitetônicos bem característicos, sendo que o vale existente na parte baixa da cidade foi construído artificialmente e hoje abriga a área de comércio da cidade.

O nome Valparaíso significa Vale do Paraíso e foi assim batizado pelo navegantes que passavam por tempestades e mares tenebrosos e quando chegavam naquele porto encontravam o seu paraíso. Nos Sec. XVI e XVII era uma cidade riquíssima devido a sua importância portuária, porem a sua decadência chegou em 1914 com a abertura do Canal do Panamá que desviou grande parte das rotas mercantes.

Para se chegar ao topo da cidade de Valparaíso é preciso subir de ônibus, a pé ou de elevadores e a cidade é considerada um patrimônio da humanidade pela UNESCO, por ser uma cidade espontânea onde as construções foram agregando-se de acordo com a necessidade dos moradores e pelo estilo de vida dos seus habitantes que convivem no mesmo bairro.

Um fato interessante em Valparaíso são os prédios que de um lado da rua parece uma única casa de um andar e do outro lado podemos ver o prédio, desta forma, para entrar na própria casa o morador precisa passar por dentro da casa do vizinho.

Neruda escreveu em seus versos que: Valparaíso é um arco-íris de cores, e isso se vê nas ruas onde as casas são extremamente coloridas. Isso deve-se ao fato que por estar localizada em uma região costeira há muita corrosão na pintura e por isso as pessoas utilizam a tinta de alta qualidade que sobra da pintura dos navios para colorir as suas próprias casas e, assim como há navios de diversas cores, também em Valparaíso as casas são multicoloridas.

Descendo as ladeiras da cidade chegamos ao vale artificial onde encontra-se o comércio da cidade e a região portuária, ali podemos ver o símbolo da valentia do povo chileno. Conta a história que durante uma batalha contra um navio peruano, uma pequena fragata com seis marinheiros chilenos lutaram bravamente mesmo sendo extremamente frágeis em comparação com os inimigos. Os peruanos, mesmo depois de derrotá-los, levaram os corpos dos marinheiros chilenos de volta para seus familiares em honra à valentia deles, o que não é nada comum em batalhas no mar.

Depois desta breve visita a Valparaíso prosseguimos o passeio ate Viña del Mar que fica bem ali ao lado. Viña é considerada uma cidade jardim e tem o cassino mais antigo do Chile aberto desde 1930. Logo na entrada da cidade está o atrativo turístico mais fotografado: o relógio de flores, um presente do governo suíço.

Como a fome já estava batendo, tivemos uma parada estratégica no Castelo del Mar, a antiga residência de um árabe em 1918 e que hoje funciona como um restaurante especializado em frutos do mar. E como não podia deixar de ser, pedi logo um salmão ao molho mar y tierra com camarões, champignon, batatas e ervas finas ($13.000 pesos) e me fartei com a vista maravilhosa e ensolarada de Viña del Mar.

La pelas tantas, seguimos nosso passeio até a Avenida Peru, a mais badalada no verão chileno e fomos molhar os pézinhos na Praia de Acapulco com suas águas geladas do Oceano Pacifico. Durante o tempo de ócio conheci as carruagens que ainda levam os turistas a percorrer as ruas da cidade e a estátua de um dos únicos e verdadeiros Moais fora da Ilha de Páscoa.

A Ilha de Páscoa está localizada a 3.500Km do Chile e a única companhia aérea que voa pra la é a Lanchile que tem preços bem salgados, porém fiquei sabendo que a Armada Chilena realiza um cruzeiro de 2 semanas para levar mantimentos para a ilha e abre vagas para os aventureiros que queiram visitar o local com preços bem módicos.

Os moais mais antigos da Ilha de Páscoa possuem 2400 anos, sendo que os mais altos são os mais modernos e quanto menores mais antigos. O Chile tem a posse da ilha e tudo por lá custa muito caro, um refrigerante chega a custar US$5 porque tudo tem que ser levado do continente, inclusive o lixo produzido é retirado e volta ao continente.

Digamos que depois deste dia agradável, iluminado e mais quentinho, eu já estava preparada para subir as Cordilheiras e conhecer a neve!!!

3o Dia – Cordilheira dos Andes

Em meados de maio a neve já chegou no topo dos Andes, mas ainda não é tempo de esquiar ou se esbaldar nas geleiras, porém como eu estava de passagem por Santiago não podia deixar de provar a sensação de pisar na neve e sentir o gostinho de estar no alto da Cordilheira dos Andes.

Assim sendo, logo pela manhã la estava eu serpenteando as 61 curvas que levam até o Vale Nevado a 50Km de Santiago e a 3670 metros de altitude. Ao longo do caminho a paisagem bucólica do Rio Mapocho descendo por entre os vales, a vegetação perdendo suas folhagens e as cabanas de inverno são exemplos clássicos do encanto deste lugar que deve ser muuuuuuuuuuuuito frio no auge do inverno.

Rio Mapocho

La no alto, o Vale Nevado, o maior centro invernal do Hemisfério Sul com 9000 hectares de superfície que, de 21 de Junho a 12 de Outubro, abre as suas 34 pistas para as atividades de ski, snowboard e heli-ski.

A única atividade daquela manha foi pisar, rolar, escorregar e fazer bolinhas com o pouco de neve acumulada no topo da montanha e finalizar com um chocolate quente, o que pra mim já estava de bom tamanho.

Ao voltar para Santiago ainda tive tempo de visitar o Centro de Artesanatos Los Domenicos com suas lojinhas de artesãos que vendem os mais variados produtos feitos a mão e experimentar uma deliciosa empanada chilena acompanhada de um Pisco, a bebida típica da região.

Post Relacionado: Os mistérios e esplendores de Rapa Nui (Ilha de Páscoa)

Quer receber mais dicas de viagem?

Então curta nossa página no Facebook.

Siga o @turisnews no Twitter.

Não seja egoísta, compartilhe com seus amigos!

Anúncios

2 Respostas para “As belezas e os sabores do Chile

  1. Muito bom o teu post,
    algumas dicas tua irei incorporar ao meu roteiro.
    Uma dúvida, quando viajou por lá?
    Parabéns

    • Que bom que vc gostou Mateus, eu estive no Chile no inicio do mês de maio, ainda nao estava muito frio por la, mas eles estavam contentes porque as previsões eram muito boas para a temporada de neve.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s