O maior deserto de sal do mundo


Depois de alguns meses sem dar muitas notícias por aqui, eis que torno com novidades fresquinhas diretamente do maior deserto de sal do mundo com seus 10.582 m2 de extensão, suas 10 bilhonésimas toneladas de sal e uma das maiores reservas mundiais de lítio e boro (aqueles elementos químicos que talvez tenhamos visto somente na tabela períodica, mas que são muito utilizados em baterias e equipamentos mecânicos). O Salar de Uyuni é sem sombra de dúvidas um daqueles lugares que vale todo e qualquer perrengue de uma viagem, e olha que chegar lá e desfrutar de sua magnitude exige um certo grau de desprendimento de conforto e um bom senso de humor para aguentar horas de viagem dentro de uma 4×4 em meio ao altiplano a vários metros de altitude.

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A formação científica do salar deve-se às águas das montanhas que descem o altiplano e, sem ter uma via de drenagem, acabam concentrando-se em lagoas salgadas que evaporam com o calor e dão origem a blocos de sal que vão se acumulando ao longo dos anos e formam este vasto complexo que se estende por 180 quilômetros de Oeste a Leste e 280 quilômetros de Norte a Sul.

salar de uyuni

Já segundo a lenda dos índios aymaras que vivem na região, o salar está cercado por 3 montanhas chamadas: Kusina, Kusku e Tunupa que representam pessoas gigantes. Tunupa e Kusku eram casados até que um certo dia Kusku cansado daquela monotonia do deserto resolveu trair Tunupa com Kusina fazendo com que sua esposa derramasse tantas lágrimas a ponto de formar o imenso salar. Histórias e traições a parte, o importante a saber antes de começar a viagem é que existem diferentes maneiras de se chegar ao salar e cada uma delas reserva surpresas e paisagens incríveis ao longo do deserto árido e repleto de cores, portanto vamos elencá-las para facilitar a vida dos aventureiros.
1. Tanto as agências de viagem em São Pedro de Atacama no Chile como na cidade de Uyuni na Bolívia comercializam pacotes de 3 e 4 dias (US$ 100-150 passeio com hospedagem e alimentação inclusa) que percorrem o trajeto passando pela Lagoa Verde, Lagoa Colorada, Cemitério de Trens e Salar de Uyuni em carros 4×4 compartilhados com até 6 pessoas com hospedagem em refúgios e casas de famílias mega simples e até mesmo sem chuveiros. Geralmente o passeio de 4 dias é para quem sai de Uyuni ou de São Pedro de Atacama e volta para o mesmo local (um dia somente para o retorno), enquanto que o passeio de 3 dias parte de São Pedro de Atacama e termina em Uyuni ou vice-versa.
2. Muitos turistas que visitam o Salar de Uyuni não estão dispostos a enfrentar o perrengue da viagem de 3 dias em condições bem cansativas em carros compartilhados, por isso muitas agências oferecem o serviço de transfer privado desde São Pedro de Atacama no Chile diretamente à cidade de Uyuni de onde partem os passeios pela manhã para conhecer o Salar (US$500-US$900), ou até mesmo a opção de pernoitar em um dos hotéis de sal localizados aos arredores do Salar (diárias à partir de US$ 90).
3. Outra opção muito comum entre os viajantes é partir diretamente de La Paz na Bolívia de ônibus (150 pesos bolivianos – passagem podem ser compradas diretamente na rodoviária local) ou de avião (companhia Amaszonas – http://www.amaszonas.com – a partir de US$ 100 o trecho) para a cidade de Uyuni, visitando o salar em um dia e seguindo viagem para o Peru ou Chile. Há também a alternativa de percorrer o trajeto de La Paz a Uyuni de trem e de quebra desfrutar das paisagens altiplânicas, basta pegar o ônibus em La Paz até Oruro (3 horas de viagem) e em sguida o trem até Uyuni (7 horas de viagem), lembrando sempre que os bilhetes devem ser adquiridos antecipadamente através da página oficial da Empresa Ferroviaria Andina
Seja qual for a opção de viagem a verdade é que a visita ao Salar de Uyuni é única e vale a pena em todos os sentidos, principalmente pela paisagem que muda de cor ao longo do percurso e da sensação incrível de estar flutuando em um espelho d’água.
Quanto à minha experiência pessoal posso dizer que foi uma viagem sensacional que valeu cada segundo. Partindo de São Pedro de Atacama bem cedinho, após passar pela imigração chilena e boliviana lá estava o motorista do grupo esperando do lado boliviano com seu 4×4 e seu cd de reggaton com mais de mil música que iriam nos acompanhar pelos próximos 3 dias de viagem: se chamava Victor, de origem aimara e com seu sorriso tímido foi o responsável em desvendar-nos os segredos do deserto.

controle bolivia

Controle de imigração na fronteira Chile-Bolívia.

Após pagar a taxa de 160 bolivianos para entrar na área do parque a primeira parada depois da fronteira foi nas águas termais, as quais na verdade são apenas pequenas lagoas naturais com águas quentes e um ponto de apoio onde podemos utilizar os banheiros por meros 6 pesos bolivianos. Esta parada é estratégica e vale lembrar que nestas altitudes o corpo pode exigir um pouco mais de oxigênio e por isso depois de um banho relaxante pode ocorrer queda de pressão, por isso muitas agências desaconselham fazer o banho nesta parada, principalmente se a temperatura ambiente for muito baixa.

aguas termais bolivia

Primeira Parada do grupo na Bolívia para um banho em Águas Termais.

Depois de uma breve pausa, seguimos a viagem até a Lagoa Verde (naquele dia em específico a dita cuja não estava muito verde porque devido ao fenômeno El Niño o nível das águas estava muito baixo, mas enfim valeu super a pena), seguida pelos Geisers sol de mañana, uma paisagem fantástica com enormes crateras ativas que jorram uma substância sulfurosa cinza a temperaturas altíssimas (vale lembrar que neste complexo dos geisers não há guardas e a segurança fica por conta de cada visitante, portanto é importante não se aproximar muito das crateras para evitar acidentes e queimaduras).

geisers bolivia

Crateras dos géiseres Sol de la Mañana.

Lagoa Verde

Lagoa Verde

Lagoa Colorada com os flamingos.

Lagoa Colorada com os flamingos.

Hospedagem no refugio da Lagoa Colorada.

Hospedagem no refugio da Lagoa Colorada.

Paisagem do altiplano boliviano com as suas famosas llamas.

Paisagem do altiplano boliviano com as suas famosas llamas.

Depois de percorrer vários quilômetros era o momento de organizar as mochilas no refúgio improvisado em meio ao deserto e conhecer a Lagoa Colorada com seus 80 quilômetros de extensão, suas águas ricas em arsênico e seus ilustres moradores coloridos: os flamingos. Tivemos a tarde toda livre para visitar a lagoa e no final do dia aproveitamos o jantar no refúgio com os demais grupos de viajantes antes que a energia elétrica do gerador acabasse (o refúgio oferece camas bem confortáveis porém somente 3 banheiros para uma multidão de pessoas e nada de pensar em tomar banho porque nestas altitudes a água e a energia são coisas raras, tanto que a energia elétrica mal dá para recarregar os celulares e acaba rapidinho por volta das 22:00).

No segundo dia de viagem partimos do refúgio por volta das 07:00 e entre solavancos passamos o dia inteiro a desbravar e fotografar as mais belas paisagens entrecortadas por rios e habitadas por valentes campesinos que tem na plantação da quinoa e no pastoreio de llamas a base de sua sobrevivência neste ambiente semi-inóspito. Ao entardecer chegamos finalmente ao refúgio de sal que fica nas proximidades do salar. O vento indicava que aquela noite seria chuvosa e a expectativa era grande já que a chuva era muito bem vinda para formar o espelho d’água na manhã seguinte.

Refugio de sal nas proximodades do Salar.

Refugio de sal nas proximidades do Salar.

E depois de uma noite de tempestade lá estava o meu pequeno grupo logo cedinho na entrada do salar para apreciar o nascer do sol e em seguida visitar a Ilha de Incahuasi (a casa Inca no idioma quechua – entrada 4 pesos bolivianos), uma pequena elevação de terra cercada de sal por todos os lados com uma alta concentração de seres vivos, incluindo os cactus gigantes (Echinopsis atacamensis) de até 10 metros de altura e com mais de 600 anos que são amplamente utilizados na fabricação de casas e objetos de uso cotidiano.

Amanhecer no Salar de Uyuni

Amanhecer no Salar de Uyuni

Espelho d'agua do Salar de Uyuni

Espelho d’água do Salar de Uyuni


As melhores fotos em perspectiva podem ser feitas proximas a Incahuasi.

As melhores fotos em perspectiva podem ser feitas proximas a Incahuasi.

Antigo hotel de sal que hoje abriga um centro de visitantes.

Antigo hotel de sal que hoje abriga um centro de visitantes.

Ilha de Incahuasi

Ilha de Incahuasi

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Salar em perspectiva craquelado.

Depois de aproveitar várias horas ao ar livre usando a criatividade para fazer as fotos em panorama no salar, seguimos para a cidade de Uyuni para a última etapa da viagem que incluia a visita ao cemitério de trens, um ferro velho de locomotivas abandonadas em uma área bem degradada e repleta de sacolas plásticas de lixo voando pra todos os lados e uma parada no centro da cidade para o almoço antes de iniciar a jornada de retorno a São Pedro de Atacama.

Cemitério de trens próximo à cidade de Uyuni.

Cemitério de trens próximo à cidade de Uyuni.

Melhor período para visitar o Salar: Os meses de inverno (junho a outubro) costumam ser muito procurados devido ao gelo que se acumula nas montanhas e proporcionam um encanto todo especial às paisagens das lagoas, no entanto se o intuito é ver o salar como um espelho d’água os melhores meses vão de março a abril, período de chuvas no deserto. Durante a minha visita (Janeiro) tive a sorte de conhecer o salar justo depois de uma noite chuvosa, fato este um tanto quanto inusitado porque neste período de grande influência do El Niño na região o calor é infernal e até mesmo as lagoas estão quase secas devida à grande evaporação.

Onde ficar:
Hotel Palácio de Sal: o antigo hotel de sal contruído em meio ao salar em 1998 foi desativado devido à poluição e falta de estrutura e hoje funciona como restaurante e ponto de apoio aos viajantes. Em substituição a ele foi construído em 2004, nos arredores do salar, o Hotel Palácio de Sal com 30 apartamentos em forma de iglus, sendo considerados os mais exclusivos e diferentes do mundo pela revista Conde Naste Traveler.

Hotel de Sal Luna Salada: um dos hotéis mais bem avaliados pelos visitantes que tem opções de suítes com vista para o salar, além do restaurante Tunupa com pratos da culinária andina.

Refúgios familiares: a maioria dos visitantes hospeda-se nestes refúgios construídos com blocos de sal nos arredores do salar. Estas hospedagens oferecem apenas acomodações simples, porém muito cômodas onde é possível entrar em contato com a cultura e ajudar a incrementar a renda das famílias locais.

O que levar para a viagem ao Salar de Uyuni:
1. roupas quentes (toca, luvas, sapatos impermeáveis, calças e blusas corta vento).
2. Papel higiênico (jamais, eu disse jamais faça uma viagem à Bolívia sem ter ao menos uma folha de papel higiênico na bolsa.
3. Toalhas umidecidas para higiene pessoal nas paradas dos refúgios que não possuem duchas.
4. Água mineral (ao menos um litro por dia)
5. Frutas secas e chocolates
6. Protetor solar
7. Carregador de baterias
8. Pomada Nebacetin (parece estranho mas esta pomada ajuda a regenerar a pele e os lábios depois de um dia de sol e frio).
9. Medicamentos para indigestão e diarréia.

Dica mais que especial:
1. Toda a atenção com a alimentação talvez não seja suficiente para evitar um diarréia durante a viagem, por isso evite ingerir alimentos crus, beba bastante água e prefira as frutas secas. O sistema sanitário deste roteiro é bastante precário e muitas vezes o único banheiro disponível é o mato mesmo, por isso aproveite ao máximo as paradas ao longo do caminho e tenha sempre em mãos pesos bolivianos em moedas e notas pequenas para pagar pelos serviços.
2. Os bolivianos são muito amigáveis e tranquilos, porém não se atreva a fotográ-los sem a prévia autorização pois eles são tímidos e preferem manter-se a uma certa distância.
3. Em Uyuni, assim como nos demais povoados da região não há caixas automáticos, por isso convém levar pesos bolivianos e de preferência em notas pequenas e moedas para facilitar o troco nas paradas.

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Uma resposta para “O maior deserto de sal do mundo

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