Os mistérios e esplendores de Rapa Nui (Ilha de Páscoa)


A primeira vez que ouvi falar da ilha de Páscoa (Rapa Nui) foi em 1994 quando assisti o filme Rapa Nui de Kevin Costner e sinceramente naquela época nem podia imaginar que um dia visitaria esta que é uma das ilhas habitadas mais remotas do planeta.

Localizada em meio ao Oceano Pacífico a 04h30min de voo de Santiago, a ilha pertence ao Chile e ainda é rodeada de mistérios e incógnitas a respeito de sua origem e da construção das enormes estátuas monolíticas chamadas de moais que são o seu principal cartão postal.

Segundo a tradição popular, Rapa Nui foi colonizada por um grupo de povoadores de uma ilha polinésia (talvez uma das ilhas Marquesas), que tinha o propósito de desbravar novas terras para o cultivo de alimentos e foi liderado por Hotu Matu’a, um ancestral do povo Rapa Nui.

Durante muitos séculos, o culto aos ancestrais deificados foi o centro da vida do povoado da ilha que manifestou suas crenças através da construção de altares cerimoniais (Ahu) e das esculturas monolíticas (Moais), as quais estavam posicionadas estrategicamente de acordo com o movimento estelar, indicando o período do ano no qual eles se encontravam e com suas faces voltadas para o interior da ilha, emanando dessa forma o poder dos ancestrais de volta ao povoado.

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Desde a chegada até o último minuto em Rapa Nui a impressão que tive foi a de estar vivendo em meio ao set de filmagem do filme, só que descobrindo cada cantinho e cada fragmento da história local com a presença viva dos descendentes diretos deste povo que ainda conserva com orgulho o idioma, a dança e os costumes de seus antepassados.

Já na chegada ao aeroporto de Mataveri, que fica bem próximo ao centro na região de Hanga Roa onde se concentram os hotéis, pousadas, restaurantes e onde vive a população da ilha, os visitantes aproveitam para adquirir o bilhete de entrada ao Parque Nacional de Rapa Nui (US$60) que dá acesso ao Rano Raraku (o local onde os moais eram esculpidos e fabricados a partir das rochas vulcânicas da montanha) e à vila cerimonial de Orongo (onde ocorriam as competições da grande festa Tapati com a escolha do homem pássaro). Logo em seguida, ao sair do saguão do aeroporto, são recepcionados com um colar de flores enviado pelos hotéis e pousadas com a calorosa Iorana (boas-vindas).

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No meu primeiro dia na ilha, depois de me acomodar no Hostel Kona Tau que faz parte da rede de albergues da juventude, fui dar uma volta por Hanga Roa e visitar o complexo de Tahai, uma área costeira com diversos atrativos como o museu antropológico que apresenta as características históricas dos povos polinésios na ilha e seu modo de vida (US$ 2 entrada e fecha nas segundas-feiras), o cemitério utilizado a partir da década de 50 e é claro, os famosos moais que são considerados os mais antigos da ilha. Ali no complexo, os visitantes concentram-se todas as tardes para apreciar um pôr-do-sol fascinante, onde as cores do céu vão mudando a cada segundo formando um espetáculo natural diante das lentes das câmeras atentas em busca de uma foto estilo cartão postal.

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Logo pela manhã no dia seguinte fui dar a volta de carro com uma família de chilenos para conhecer os principais atrativos da ilha, começando pelo Ahu Akivi, o altar cerimonial dos sete moais, o único localizado longe da costa e com as faces dos moais voltadas para o Oceano. O complexo de Puna Pau, uma área de rochas vermelhas de onde os chapéus dos moais eram retirados, esculpidos e depois transportados até os altares cerimoniais ao redor da ilha. Na verdade estes não eram chapéus e sim coques, isso mesmo, os homens Rapa Nui tinham cabelos ruivos e longos e talvez esteja aí a explicação para os grandes blocos de pedras vermelhas que eram colocados no alto das cabeças dos moais.

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Contornando a ilha, passamos pelo complexo Te Pito Kura, uma estrutura rochosa localizada ao longo da costa, formada por uma pedra grande em meio a um círculo chamada de “o umbigo do mundo”; esta pedra teria sido trazida pelo colonizador polinésio Hotu Matu’a e segundo a lenda teria um grande poder espiritual, por isso todos que passam por ali a tocam e fazem um pedido. A poucos metros da pedra encontra-se outro altar cerimonial com um moai de quase 10 metros de altura caído com a face voltada para o chão, este seria um dos maiores moais já transportados e erguidos em uma plataforma cerimonial na ilha.

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Pedra “umbigo do mundo”

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Depois de fazer os nossos pedidos seguimos ao Rano Raraku, a fábrica onde os moais eram esculpidos na montanha e transportados para os altares cerimoniais da ilha. Com a presença de um guia-parque fomos conhecer estas obras de arte que parecem fazer parte de uma escola de escultores, já que cada um dos moais possui um estilo diferente, inclusive alguns deles encontram-se ainda inacabados e encravados na rocha, enquanto outro me pareceu bastante raro por ser bem mais gordinho que os demais e estar sentado.

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Do alto da montanha vulcânica de Rano Raraku dá pra avistar lá embaixo à beira mar o complexo de Ahu Tongariki com seus quinze moais alinhados de costas para a Praia de Hotu’iti, e onde vários visitantes concentram-se todas as manhãs para ver o nascer do sol em um dos pontos mais esotéricos e esplendorosos de Rapa Nui.

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Finalmente depois destas visitas decidimos passar o resto da tarde em Anakena, a única praia propícia ao banho na ilha com suas areias branquinhas e mar de águas frias e cristalinas,  onde encontramos o Ahu-Ature com seu único moai solitário e o Ahu-Nao Nao com seus sete moais de orelhas compridas, sendo que quatro deles ainda conservam seus coques vermelhos. Segundo relatos, neste pequeno pedaço do paraíso, Hotu Matu’a teria aportado com sua canoa e iniciado a colonização de Rapa Nui.

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Anakena a única praia propícia ao banho na ilha

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Apesar de toda a beleza de Anakena, um dos passeios mais interessantes certamente é a subida ao vulcão Rano Kau para avistar sua cratera que ainda conserva a flora original da ilha e a visita à vila cerimonial de Orongo onde se realizava a cerimônia anual do tangata-manu, quando os chefes de diferentes tribos ou seus representantes competiam para conseguir o primeiro ovo de manutara (gaivota) que chegavam para fazer seus ninhos nas ilhotas de Motu Nui. Esta cerimônia acontecia no início da primavera quando os grupos provenientes de toda a ilha alojavam-se em Orongo e preparavam-se para a competição, na qual os participantes desciam o penhasco e nadavam até as ilhotas de Motu Nui, onde permaneciam dias ou semanas esperando a chegada do manutara, até que um dos competidores encontrava o ovo e tinha que voltar à vila para ser investido na posição de homem pássaro, sendo considerado tapu (sagrado) e a partir de então vivia em reclusão durante um ano.

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topo do vulcão Rano Kau

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ilhotas de Motu Nui onde as gaivotas fazem seus ninhos

Uma curiosidade sobre o vulcão Rano Kau é que ele, juntamente com o Poike e o Terevaka (o mais alto da ilha), através de suas atividades de erupção, formou a ilha como a conhecemos no presente, salpicada de cones vulcânicos, crateras e campos de lava.

O caminho para se chegar ao Rano Kau pode ser feito de carro pela estrada principal ou a pé a partir de Hanga Roa, seguindo uma trilha em meio a um caminho repleto de flores e paisagens deslumbrantes e ainda com direito a uma passadinha por Ana Kai Tangata (uma caverna com pinturas rupestres que serviu no passado como atelier para a fabricação de embarcações).

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dentro da caverna de Ana Kai Tangata

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Campos floridos pela ilha

Como chegar: A Lanchile é a única companhia aérea que disponibiliza voos para a ilha e graças a uma super promoção lançada no mês de fevereiro, vários brasileiros tiveram a oportunidade de conhecer e se encantar com as belezas de um dos destinos mais visitados do Chile, por isso vale a pena ficar de olho nas promoções e garantir seu lugar para visitá-la em sua próxima viagem.

O que fazer: se você é um viajante independente e quer conhecer a ilha por conta própria a melhor pedida é alugar um carro (média de US$ 80 a diária) e dar uma volta pela ilha conhecendo os seus principais atrativos. Agora se você é daqueles que curte um pouquinho mais de emoção pode alugar uma bicicleta (US$ 20 diária), fazer um passeio com um guia nativo (US$ 70 passeio de dia inteiro com almoço incluído) ou até mesmo encarar uma caminhada ou cavalgada por conta própria. As estradas são bem sinalizadas e não há como se perder na ilha, sendo que a paisagem ao longo do caminho é um atrativo a parte.

Onde hospedar-se: a ilha possui opções de hospedagem que vão desde os hotéis de categoria superior como o explora (uma rede alemã que tem a concessão durante 30 anos e depois terá que devolver o terreno aos nativos da ilha de acordo com uma lei vigente) até pequenas pousadas familiares com preços a partir de US$ 30 a diária.

O que comer: o prato típico da ilha é o curanto feito a base de peixe embrulhado em folhas de bananeira e assado na brasa, porém esse prato é servido somente em restaurantes especializados que oferecem um espetáculo folclórico com danças típicas da ilha incluídos no valor do jantar, nos demais restaurantes é possível encontrar ceviches, peixes, empanadas e outros tipos de lanches e variedades com preços a partir de US$ 10.

Espetáculos na ilha: não deixe de assistir o balé folclórico Kari Kari que se apresenta todas as terças, quintas e sábados (US$20) ou o espetáculo Te Ra’ai que inclui também o jantar com o curanto nas segundas, quartas e sextas (US$ 70) e é administrado por uma brasileira casada com um Rapa Nui.

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Cena do espetáculo folclórico Kari Kari

O que levar: como a ilha possui diversas cavernas e trilhas não se esqueça de levar uma capa de chuva, lanterna, protetor solar, boné, tênis, jaqueta impermeável, além de uma roupa de banho para aproveitar a praia de Anakena.

O que comprar: com certeza não há como voltar para casa sem trazer uma pequena estátua de um moai feita com a pedra vulcânica da ilha, além dos colares e brincos feitos com conchas e as camisetas de Rapa Nui.

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3 Respostas para “Os mistérios e esplendores de Rapa Nui (Ilha de Páscoa)

  1. Adorei sua descrição da Ilha de Páscoa, Cláudia! Eu já tinha lido bastante, estive na Ilha no mesmo período que você, mas há detalhes que você me esclareceu agora!!! Eu acrescentaria a missa no domingo pela manhã com a população cantando cantigas rapa nui numa espécie de mantra absolutamente fantástico! Abraços e quem sabe nos encontramos na próxima aventura! Vânia Fernandes – São Paulo!

  2. Pingback: As belezas e os sabores do Chile | VIAGENS PELO MUNDO·

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