As mais ricas cores e sabores do Peru


Depois de algum tempo sem por o pé na estrada, eis que aqui estou para compartilhar dicas e histórias de uma viagem de magia e autoconhecimento pelo Peru.

1º Dia – Lima

Depois de um voo bem cansativo com conexão em Santiago, ainda tive que encarar o trânsito caótico do aeroporto até o bairro de Miraflores e, naquele momento, ao sentir na pele como dirigem os limenhos confesso que me arrependi por não ter feito um seguro de viagem. Ali em Lima vale a lei do carro maior e mais potente, pois ninguém dá sinal para ultrapassar e o buzinaço é constante, sem contar que os pobres pedestres sofrem até para atravessar na faixa.

A capital do país, apesar de todo seu desenvolvimento, ainda não possui sistema de metrô e a população sofre com o transporte público que ao que parece é para pagar os pecados: ônibus lotados, tuk tuks (aqueles carrinhos pequenos para até 3 pessoas) e os táxis que apesar de não contarem com taxímetro são super econômicos quando você combina o preço antes de embarcar em um deles. Desta forma, depois de uma pequena saga consegui chegar sã e salva quase duas horas depois no Hostel Pradera Verde em Miraflores onde finalmente tive uma noite tranquila de sono.

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2º Dia – Lima

Como minha estadia na cidade seria curta, aproveitei a manhã para conhecer o sítio arqueológico de Huaca Pucllana em Miraflores (aberto das 09:00 às 17:00hs – entrada 12 soles), uma área de jogos dos antigos limenhos que utilizavam o local para realizar seus rituais em honra às divindades da lua e do mar, além de ser também um importante centro têxtil.

A estrutura arquitetônica do sítio arqueológico de Huaca Pucllana tem mais de 1500 anos, foi construída em forma de pirâmide escalonada com 7 níveis e nunca sofreu com os sismos, típicos desta parte do país, isso porque foi construída com pequenos blocos (alluvitos) feitos com uma mistura de terra e conchas utilizando apenas os pés e as mãos dos trabalhadores, sem o uso de moldes.

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A cada novo governo ou civilização construía-se um novo nível, sendo que no nível mais alto aconteciam os rituais. Os habitantes do antigo Peru tinham uma ligação muito estreita com seus ancestrais e por ser uma sociedade matriarcal, a cada 50 anos praticavam o sacrifício de mulheres, pois acreditavam que elas tinham uma estreita relação com as divindades da lua e do mar.

Antes mesmo dos incas habitarem aquelas bandas, a civilização Wari ocupou Huaca Pucllana e ali deixou sua marca em sepulturas com corpos na posição fetal, oferendas de comidas e um recém-nascido (isso mesmo, eles sacrificavam um bebê e enterravam na sepultura junto aos demais, pois acreditavam que estes conduziriam mais facilmente os espíritos por serem seres inocentes e puros).

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Depois da civilização Wari, a Huaca também foi ocupada pelos Ychsma que introduziram uma curiosidade aos rituais fazendo oferendas com sapos com o intuito de pedir aos Deuses que incrementassem a quantidade de águas nos rios, já que em Lima a chuva é coisa bem rara no decorrer do ano.

Por volta de 1470 chegaram os incas na Costa Central do Peru, no entanto não ocuparam a Huaca Pucllana porque esta já estava abandonada, no entanto os espanhóis ao chegarem em Lima decidiram utilizar este local como mirante da cidade, pois o local era perfeito para avistar o porto e as embarcações que se aproximavam da costa.

Toda a visita à Huaca é acompanhada por um guia e ao final ainda é possível conhecer uma plantação de produtos típicos peruanos como a quinua, pimentão, algodão e coca, além de alguns exemplares de camelídios sul-americanos (llamas, guanacos e alpaca) e o cui, um animalzinho simpático que no antigo Peru servia como oferenda e que hoje faz parte da alimentação diária da população dos Andes, podendo ser encontrado até mesmo nos açougues dos supermercados.

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Depois desta visita dei uma volta pelo bairro de Miraflores, passando pelo Parque 5 de Junio e sua exposição que evoca os direitos das crianças com vários desenhos e painéis, visitei a Igreja de N. Sra. Dos Milagres e logo em seguida peguei um táxi para dar uma voltinha no centro da cidade e conhecer a Catedral e a Praça de Armas (30 soles ida e volta), no entanto não tive muita sorte porque neste dia havia uma manifestação pública nas ruas centrais e devido à aglomeração de pessoas decidi voltar para Miraflores e conhecer o Parque do Amor, o local preferido dos limenhos para apreciar o pôr-do-sol da capital.

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Localizado em um penhasco com vista para o mar, o parque é uma inspiração do Parque Güell de Barcelona com bancos repletos de mosaicos e frases de poetas e escritores locais que evocam o amor como tema central. No centro do parque há uma escultura de Victor Delfin chamada  el beso e no dia 14 de fevereiro (dia dos namorados) recebe uma concentração de casais apaixonados que, imitando a escultura, competem para dar o beijo mais longo.

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Como ainda era meio dia e o dia dos namorados não vinha ao caso, segui o conselho do taxista Jorge Moya e fui almoçar com classe no Alfresco (Malecón Bajo), um dos melhores restaurantes de Miraflores que hoje se destaca pela qualidade da sua gastronomia. Apesar de não gostar muito de peixes, provei o tradicional ceviche de linguado e salmão servido com choclo e camote (milho verde e batata doce amarela), acompanhado de um refrescante Pisco Sour , a bebida tradicional peruana feita com pisco, limão e clara de ovo batida (36 soles) e só tenho uma coisa a dizer: D E L  I C I O S O!!!

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Depois deste deleite gastronômico não me restou outra opção senão aproveitar o Parque do Amor pelo resto da tarde para relaxar e usar a internet gratuitamente com uma vista maravilhosa do Pacífico e dos surfistas corajosos que enfrentavam a correnteza destas águas gélidas. No final do dia ainda restou energia para tomar uma chicha morada (uma espécie de suco de milho escuro) e um cafezinho no Shopping Larcomar, um centro de compras bem diferente do que conhecemos, pois ele está incrustado em uma falésia face mar com varandas abertas que permitem uma vista maravilhosa do restaurante Rosa Náutica, um clássico da gastronomia limenha localizado literalmente mar adentro.

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3º Dia – Cusco

Logo pela manhã (05:00hs) lá estava o taxista Jorge Moya na porta do hotel a minha espera para irmos aos aeroporto. Eu sou péssima para acordar cedo, mas as 2 horas a menos de diferença de fuso horário com o Brasil acabam ajudando nestes momentos e nem senti tanto o cantar do galo 🙂 Assim, meia hora depois já estava fazendo o meu check-in para Cusco com a companhia Star Peru.

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Quanto ao voo com a Star Peru, digamos que a aeronave é bem pequena e um tanto quanto claustrofóbica, mas é confortável e ainda nos serviram um lanchinho com croissant recheado com patê, bolinho, água, suco e café e depois de 1h de voo agradável sem nenhuma turbulência ainda ganhamos uma balinha de cortesia e chegamos ao aeroporto de Cusco onde acontecia um treinamento de segurança em caso de terremoto. Isso mesmo, mal cheguei e constatei que esta é uma área sujeita a tremores.

Terminada a simulação lá fui eu de táxi (20 soles) até o Hotel Niños (Calle Meloc 422), a opção mais acertada para me acomodar em Cusco. O hotel faz parte de uma fundação que ajuda as crianças carentes da cidade através de estudos, cursos de culinária, manicure, pedicure, entre outros projetos sociais patrocinados pela renda arrecadada pelo hotel.  Localizado em um antigo casarão colonial, o hotel possui um pátio onde os hóspedes podem relaxar, tomar um café ou simplesmente experimentar uma das delícias locais do restaurante anexo (a sopa de abóbora é a mais pedida para esquentar as noites frias da cidade). Ao entrar no meu quarto fui surpreendida por um vasinho de flores naturais e a maciez do colchão da minha caminha!!!

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Depois de me acomodar fui rapidamente até a Praça de Armas que fica a poucas quadras do hotel e encontrei um cenário abençoado: celebração de Corpus Christi, praça lotada de fiéis e turistas, uma missa com coro e cânticos inclusive no idioma quéchua e uma emoção grandiosa sob o sol dos Andes peruanos. Depois das bênçãos a procissão seguiu pelas ruas de Cusco e pela tarde a multidão de pessoas aglomeraram-se nas praças da cidade para provar uma iguaria típica servida somente neste dia: o CHIRIUCHI, uma seleção de carnes frias de frango, boi, cui, salsicha de gostos duvidosos, além de queijo, algas, ovos de peixe e um bolinho frito (20 soles).

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Apesar do aspecto estranho do prato eu não poderia deixar de prová-lo, mas sinceramente não agradou ao meu paladar, pois consegui comer somente o bolinho, o queijo e o frango e provei um micro pedaço da carne de cui para poder dizer que o bichinho é muito mais agradável vivo na sua gaiolinha.

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Depois dessa loucura gastronômica, tomei uma Inka Kola (essa sim agradou meu paladar com seu gostinho de tutti-frutti) e fiquei horas assistindo aos desfiles e aproveitando para conhecer a arquitetura de Cusco; antigo centro administrativo do império inca cujo nome significa “umbigo” no idioma quechua, a cidade possui casarões em estilo inca e espanhol andaluz com varandas de madeira e ruas estreitas.

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Vale lembrar que Cusco está localizada a cerca de 3400 metros acima do nível do mar e muitas pessoas quando chegam nestas altitudes sofrem do mal de altura (soroche) e precisam tomar o chá de coca, mascar sua folha ou até mesmo usar uma bomba de oxigênio vendida nas farmácias, mas por incrível que pareça euzinha não senti absolutamente nada e ainda cheguei em um período de céu de brigadeiro e calorzinho durante o dia.

4º Dia – Ollantaytambo (Vale Sagrado)

Antes de mais nada, gostaria de salientar que neste dia, apesar de todas as ofertas de passeios e guias indicando as ruínas e passeios aos arredores de Cusco, a minha única vontade era conhecer Ollantaytambo e passar o meu dia neste pequeno povoado localizado a 60 quilômetros de Cusco que foi simplesmente um dos complexos arquitetônicos mais monumentais do império inca, isso porque este local serviu como cidade-alojamento (tambo) por sua localização estratégica para a dominação do Vale Sagrado dos Incas.

Desde Cusco, peguei uma van coletiva (10 soles) na Calle Pavitos e depois de 1:30hs cruzando vários povoados (Chincheros, Urubamba), vales repletos de plantações ainda cultivados da maneira tradicional inca sem nenhum tipo de maquinário, em meio a cenas bucólicas como a de uma moradora andina olhando com carinho seu pequeno rebanho de ovelhas pastando no quintal de sua casa feita com tijolos de barro, passando pelo Rio Urubamba que corta o vale e traz fertilidade às terras, finalmente chegamos ao encantador povoado de Ollantaytambo.

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Logo depois de deixar as malas no Hotel Munay Tika que fica a poucos metros da estação de trem que leva a Machu Picchu, fui diretamente visitar as ruínas  (entrada 40 soles) que fazem parte da antiga cidade Inca ainda preservada com suas ruas, fontes de água, terraços agrícolas e muros. Ollantaytambo foi um complexo militar, religioso, administrativo e agrícola construído no alto da montanha com uma importância estratégica muito grande para o império inca. Algumas das rochas utilizadas na sua construção podem ser encontradas bem longe da cidade, o que revela o domínio de técnicas avançadas de transporte. As pedras eram trabalhadas antes de serem transportadas e sulcos eram deixados para possibilitar amarrar as cordas para o transporte.

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Diz a lenda que em uma das montanhas que cerca a cidade há uma formação rochosa que lembra a metade de um rosto de um rei com barba e coroa e ao lado desta um silo de alimentos que foi tão bem planejado que até em dias de sol intenso mantém o local bem fresco devido ao vento que bate na montanha.

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O Rio Patakancha corta a cidade em duas partes: uma onde estão as casas e outra onde estão os prédios cerimoniais e os terraços em níveis onde os antigos incas plantavam diversas qualidades de milho e batatas em um processo de rotação de cultura para aprimorar as variedades neste clima de andino.

O povoado em si é minúsculo e a vida social se concentra na pequena Praça Central onde estão a maioria dos turistas, cafés, lojas de artesanatos e restaurantes; pelos arredores há vielas com construções em estilo espanhol e andino e o rio passa por pequenos córregos ao lado das ruas.

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Vou ser sincera em dizer que o dia ensolarado, o barulhinho da água correndo livre por todos os cantos da cidade e a tranquilidade do povoado foram mais que suficientes para que minha escolha tenha sido perfeita, e ainda para fechar com chave de ouro a minha passagem por Ollantaytambo, fui ver o pôr-do-sol no terraço do Restaurante Tambo del Grand Tunupa com uma bela vista para as montanhas e saboreando um prato delicioso de carne de alpaca ao molho de quinua e vinho, acompanhada de arroz e legumes e um chá picotado (um chá mate com pisco,  a bebida típica do peru) para esquentar o entardecer no alto dos Andes.

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5º Dia – Machu Picchu

O trem que sobe até o povoado de Águas Calientes, que fica aos pés de Machu Picchu, sai desde as primeiras horas da manhã da estação de Ollantaytambo em uma viagem de cerca de 1:30hs. Há duas companhias de trens que percorrem o trajeto Ollantaytambo – Águas Calientes: a Inka Rail (a mais econômica delas que tem tarifas ida e volta a partir de US$ 96) e a Peru Rail (possui mais disponibilidades de horários, opções de vagões executivos, porém os preços são um pouco mais altos). Os bilhetes podem ser adquiridos pela internet, em Lima, Cusco ou diretamente nas bilheterias de embarque, mas vale lembrar que devido ao grande fluxo de visitantes todos os dias é sempre bom tê-los em mãos, pois pode não haver disponibilidade na hora.

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Muitos viajantes preferem pegar o último trem noturno e passar a noite em Águas Calientes para poder subir a Machu Picchu logo pela manhã, mas eu particularmente acho que este povoado tem preços muito altos para os serviços que oferece e não há muita coisa interessante ali a não ser a grande quantidade de restaurantes. De qualquer forma, o povoado é o ponto de partida dos ônibus (US$ 18 ida e volta) que sobem até a entrada do Parque Arqueológico de Machu Picchu (entrada 130 soles) em um trajeto de 30 minutos.

Lá em cima da montanha a paisagem é simplesmente incrível, ao chegar pela manhã a neblina encobre praticamente toda a paisagem, mas após as 10hs o céu começa a se abrir e desvenda não só uma montanha, mas a cidade perdida dos incas.

Machu Picchu significa montanha antiga e a montanha que avistamos logo ao chegar no parque arqueológico é a Wayna Picchu, a montanha jovem que pode ser visitada por apenas 400 pessoas por dia em dois horários distintos mediante reserva com meses de antecedência.

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A visita guiada pelo complexo de Machu Picchu vale muito a pena, pois os guias são profissionais que conhecem a história e os pontos altos da civilização inca, por isso entrei em um pequeno grupo com o guia Ed e lá subimos no ponto alto onde tiramos a famosa foto estilo cartão postal do complexo, dali é possível ver os terraços, as casas e as construções encravadas no alto desta montanha com a Wayna Picchu em destaque.

Para os incas a serpente, o puma e o condor eram animais sagrados e segundo suas crenças o ouro era o sangue do sol e a prata o sangue da lua, sendo que estes metais não tinham valor como moeda de troca, mas sim como adornos para os templos cerimoniais. Para os incas a sabedoria era muito mais importante que a riqueza; não buscavam grandes conquistas e não utilizavam escravos, simplesmente usavam suas técnicas para aprimorar a produção agrícola e garantir a sobrevivência do seu povo, por isso são considerados os grandes responsáveis pela criação do calendário agrícola.

A construção do complexo de Machu Picchu se deu graças ao conjunto de alguns fatores importantes como: as pedras de Quartzo presentes no alto da montanha que são fáceis de quebrar, além da presença de água que brota da montanha e que permitiu o desenvolvimento da agricultura nos terraços encravados no alto do vale.

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Uma curiosidade quanto às casas onde viviam os incas em Machu Picchu é que as portas eram abertas e quando o proprietário saia simplesmente deixava uma madeira na posição transversal indicando que não havia ninguém em casa e todos respeitavam. No meio das montanhas, a 2400 metros de altitude, parece incrível que esta civilização tenha construído casas, templos, cemitérios e terraços de cultivo de uma maneira organizada e aproveitando os espaços com ruas e escadarias planejadas para a passagem do Deus Sol.

A cidade perdida dos incas foi instituída um santuário no dia 8 de Janeiro de 1983, em memória aos animais e plantas que foram sacrificados para que o complexo pudesse ressurgir depois de vários anos encoberto pela extensa vegetação andina e hoje é considerado como Patrimônio Mundial pela UNESCO, não podendo ser modificado e com restrições de limite de visitantes por dia para evitar maiores impactos ambientais.

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Depois de visitar cada cantinho do parque arqueológico, passear com as alpacas, tirar muitas fotos e desfrutar um dia inteiro de energização e ar puro no alto da montanha, ainda queria continuar ali por mais tempo, mas já eram quase 17hs e eu tinha que retornar a Águas Calientes para pegar o trem de volta e chegar em Cusco para passar a noite.

6º Dia – Cusco

Domingo é dia de missa rezada no idioma quechua e mercado de artesanatos no povoado de Pisac (32 quilômetros de Cusco), e este era o plano para este dia, no entanto ao acordar fui dar uma voltinha na Praça de Armas de Cusco e eis que havia uma celebração de Pacha Mama (mãe terra) com todas as autoridades da cidade, exército e grupos de dança típicos de todos os povoados da região. Isso porque no dia 24 de Junho acontece a famosa Festa do Sol em Cusco e as festividades iniciam-se já no primeiro dia do mês. Desta forma, não pude resistir e fiquei ali mesmo assistindo tudo das 09 às 15hs e foi simplesmente sensacional.

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No centro da praça várias autoridades vestidas com um ponche colorido assistem ao cerimonial composto por três videntes que preparam suas oferendas em uma cumbuca composta de milho de diversas qualidades, carne de cui e outros produtos cultivados na região. Os videntes então fazem uma oração no idioma quechua em agradecimento à mãe terra pela boa colheita, abençoam as autoridades da maneira ancestral com incenso e depois seguem todos aos pés da bandeira do país e da cidade e enterram as oferendas ao som de um grupo de música andina.

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Logo em seguida ocorrem todas as pompas, hino nacional, e começa finalmente um desfile em estilo de carnaval com vários grupos de dança com suas roupas coloridas e cada povoado traz suas tradições para a rua com muita alegria.

Vou ser sincera em dizer que todas as vezes que fecho os olhos tenho flashes daqueles momentos com todas as cores e a alegria daquele povo, as crianças dançando pelas ruas e o modo simples e cativante das pessoas que conservam suas tradições e a coragem para enfrentar as altitudes dos Andes.

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Uma cena especial que jamais sairá da minha memória será a de uma criança com seu traje típico, calçando suas ojotitas (sandalinhas feitas de borracha vulcanizada reciclada, que no Hotel Niños era usada como chaveiro das portas dos quartos) que trouxe para o desfile a pureza e a beleza que certamente perdurará por muitas gerações.

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Apesar de não ter visitado a grande maioria das ruínas nos arredores de Cusco, este dia foi mais que especial para conhecer pessoas, conversar com elas e humanizar a viagem, afinal de contas ruínas são apenas resquícios de uma era que não volta mais e pessoas são histórias vivas a serem escritas.

7º Dia – Puno

Logo pela manhã peguei o ônibus de turismo Wonder Peru Expedition  de Cusco à  Puno (07:15 – 17:30) passando por diversos vilarejos ao longo do percurso. Este roteiro pode ser feito também em um ônibus regular que sai a noite de Cusco e chega em Puno às 06:30 da manhã, ou até mesmo de trem com a Peru Rail, no entanto optei pela opção diurna para poder ter uma visão geral da paisagem ao longo do caminho.

Puno está localizada no platô andino a 3800 metros de altitude e a 350 quilômetros de Cusco. Enquanto que nos vales de Cusco predomina a agricultura, na região de Puno destaca-se a criação de llamas e alpacas, por isso caso queira comprar artigos como cachecóis, tapetes e roupas de lã de alpaca, deixe suas compras para Puno onde os preços são muuuuuuuuuuuuuito mais econômicos que nos demais lugares.

O percurso de ônibus é super tranquilo, com serviço de bordo composto de chá, água, café e refrigerante, além do almoço estilo bufê de excelente qualidade em Sicuani (metade do caminho).

A primeira parada do passeio é no vilarejo de Andahuaylillas para visitar a Igreja de São Pedro (entrada 10 soles) em estilo barroco com destaque para o órgão de madeira (ano 1600), o qual segundo dizem pode ser o mais antigo da América do Sul ainda em funcionamento. A igreja foi construída durante o domínio espanhol sob pedras incas e possui afrescos pintados com cores extraídas de plantas locais, além de ser toda recoberta em ouro e prata, metais estes extraídos da selva peruana em Puerto Maldonado.

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A segunda parada consiste na visita ao Parque Arqueológico de Raqchi (10 soles), conhecido também como o Templo de Wiracocha (divindade invisível, criadora, mestre do mundo, sendo o primeiro Deus dos antigos tihuanacos que provinham do Lago Titicaca), uma enorme estrutura retangular em meio a diversas construções de silos (qolcas), onde era armazenada a produção de quinua e onde fui apresentada pela primeira vez a uma plantinha deliciosa usada como erva aromática para conservar a carne e como chá digestivo: a Muña (uma espécie de menta).

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A terceira parada no mirante de La Raya, o ponto mais alto da viagem com seus 4.335 metros de altitude na fronteira entre Cusco e Puno com uma vista maravilhosa aos montes nevados e ponto estratégico para tirar lindas fotos e admirar os artesanatos típicos feitos com lã de alpaca (vale lembrar que os preços nesta parada são absurdamente mais caros que em Puno).

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A última parada antes da chegada em Puno é em Pucara, um pequeno vilarejo onde visitamos o pequeno Museu Lítico (8 soles) com exposição de artefatos de origem pré-inca das civilizações que ocuparam aquelas terras há milhares de anos atrás com destaque para a qualidade e bom gosto das cerâmicas que eles produziam.

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Depois de todas estas visitas e de passar pela caótica cidade de Juliaca, chegamos em Puno ao entardecer com um friozinho típico daquela região e, depois de me acomodar e tomar um banho quente no Vargas Inn, ainda tive um tempinho para desbravar o centro da cidade com seus simpáticos mercados de artesanatos a preços bem convenientes e os restaurantes e bares da avenida principal onde os turistas fazem a festa (detalhe para o bar de bebidas moleculares, algo bem atual e contemporâneo para uma cidade tão pequena).

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 8º Dia – Ilha de Uros e Taquile (Lago Titicaca)

A palavra cedinho é algo muito comum no Peru, por isso nada de pensar em dormir até tarde, pois os passeios começam mesmo às 07:00hs da manhã e isso tem lá suas razões. Nesta manhã fria o destino eram as ilhas de Uros e Taquile que ficam no Lago Titicaca com seus 8300 km2 a uma altitude de 3821 metros ( 60% de suas águas ficam em território peruano e 40% em território boliviano e é o mais alto lago navegável do mundo).

Um dos grandes atrativos do lago são as nove ilhas artificiais flutuantes de Uros; construídas com a totora, uma planta nativa do lago que transforma-se em uma espécie de palha, matéria-prima que dá sustentabilidade à ilha e às construções.

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Logo ao chegar em Uros, os moradores recebem a embarcação de visitantes com a saudação no idioma indígena aimara: Kumbi Saraki (“oi, como vai?”) e após a explicação do guia de como a ilha foi construída, fomos convidados pelos moradores para conhecer suas casas, seu modo de vida e seus artesanatos e embarcamos em um barquinho de totora (10 soles) para dar um passeio de uma ilha à outra e sentir a emoção de viver por algumas horas flutuando pelo lago.

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Depois de visitar as ilhas de Uros, a embarcação segue para a ilha de Taquile a cerca de 2:30hs dali, cruzando o Lago Titicaca e mudando totalmente a paisagem, pois a partir de Uros a profundidade do lago aumenta e a água fica cada vez mais cristalina devido à oxigenação e as ondulações da água.

Ao avistar as ilhas de Uros se distanciando, fica a curiosidade em saber como aqueles moradores conseguem viver com tão poucos recursos, somente com uma cabana de totora para dormir, cozinhando os alimentos em pequenos fogões de barro e tomando banho nas águas geladas do lago. A base da alimentação deles são os peixes do lago (cariachi e truta) e o caule da totora que é rico em cálcio e iodo e a principal fonte de renda certamente o turismo que contribui efetivamente para manter os costumes e as características das ilhas.

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Agora beleza e tranquilidade era aquilo que ainda estava por vir na ilha de Taquile, conhecida pela qualidade dos artigos têxteis ali produzidos e pela qualidade de vida dos seus habitantes. Os visitantes desembarcam no pequeno trapiche da ilha e estão livres para desbravar suas trilhas em um passeio de 1:30hs com as vistas mais lindas do Lago Titicaca e um silêncio que só é quebrado pelo canto dos pássaros até chegar na praça principal onde ficam os principais restaurantes da ilha.

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Os moradores de Taquile conservam suas tradições na vestimenta, nas danças e no modo de vida simples em contato com a natureza. Ali a expectativa de vida dos moradores gira em torno de 90-105 anos (como podemos observar nesta cena simpática deste senhor de 103 anos que ainda produz seus artesanatos manuais), não é pra menos, eles tem uma dieta diária rica em vegetais, quinua, peixes e nenhum tipo de estresse nesse pequeno pedaço do paraíso.

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E foi pensando nesta qualidade de vida e com uma lindíssima vista para o Lago que almoçamos no alto da ilha, degustando como entrada uma sopa de quinua, seguido de um delicioso prato de truta com arroz, batatas e legumes e para finalizar um chá quentinho de muña, para ajudar na digestão e no combate ao mal de altitude.

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Enquanto o chá relaxava o espírito, o guia juntamente com os proprietários do restaurante davam uma aula de história da ilha, começando pelas características dos gorros usados pelos homens: os que usam gorros metade branco e metade colorido são solteiros, os que usam gorro todo colorido são casados e aqueles que usam gorros bordados com miçangas são os governantes. Depois disso, a super demonstração de como limpar até as manchas mais difíceis usando uma planta nativa da ilha chamada Chukjo que depois de macerada e colocada na água se transforma em um poderoso detergente (não sei como a P&G ainda não encontrou esta planta para fabricar detergentes naturais e mais potentes ).

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Eu como sempre, ao visitar lugares fantásticos como esta ilha, não tinha nenhuma vontade de voltar para Puno, no entanto depois de um bom tempo livre para praticar o dolce far niente tive que encarar mais 2:40hs de belezas e encantos do Lago Titicaca e voltar para Puno com a certeza de que viajar é realmente trocar a roupa da alma.

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Depois deste dia maravilhoso e inesquecível voltei para Puno para passar a noite e na manhã seguinte fui até Juliaca (45Km de Puno) para pegar o voo pra Lima e voltar pra casa com a certeza de que a única coisa que podem te roubar no Peru é o seu coração, pois não vejo a hora de voltar …

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Uma resposta para “As mais ricas cores e sabores do Peru

  1. Hola Claudinha !

    Tu viaje a nuestro querido Perú ha sido sin lugar a dudas una experiencia encantadora ya que nuestra gente te ha dado la hospitalidad y el buen cariño que nos suele diferenciar con otros países extranjeros.

    Deseo de todo corazón que vuelvas a estas tierras para que pruebes un trago muy peruano que es el : ‘Machu Picchu sour’ y también visites las islas ballestas que han sido parte de nuestra cultura ancestral por muchos años.

    En ese lugar incluso se grabó una película muy famosa llamada : ‘Alias la gringa’. Me encantaría saber si es que en tu corazón aún sigue el espíritu aventurero de conocer más acerca de este país encantador, lleno de caos, pero con gente maravillosa.

    Saludos desde Lima – Perú,

    Fabián Bacigalupo (clansman87@hotmail.com / djblastlive4ea@yahoo.com)

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