Resgatando o passado em Terra Nostra.


Esta viagem foi uma daquelas descobertas que começou a muitos anos atrás quando eu ainda estava em busca das minhas origens italianas. Lá pelos longínquos anos de 1880 alguns dos meus antepassados italianos decidiram deixar a terra natal na região do Vêneto e seguiram rumo a tão sonhada América. Alguns deles encontraram o paraíso (que nem era tão paradisíaco assim) nos vales do Rio Grande do Sul enquanto outros seguiram rumo às mais longínquas terras da Argentina. Pois é, e o que eu tenho a ver com tudo isso? Muito bem, eu sou curiosa e adoro conhecer novas histórias e lugares e por isso comecei a pesquisar as origens dos meus antepassados e depois de enviar milhares de cartas e esperar longos anos eis que um certo dia uma boa notícia chegou pelo correio e eu finalmente descobri de onde aqueles benedetti vieram: de uma cidadezinha na colina cheia de parreirais e famosa pela produção do vinho prosecco chamada de Col San Martino.

Esta notícia foi o pontapé inicial para preparar as malas e decidir conhecer de perto a terrinha de onde aqueles aventureiros decidiram partir em uma manhã de tempo escuro, atravessando tempestades e uma travessia de quase 40 dias em um navio a vapor até chegar ao Brasil. Eu, ao contrário, fiz o caminho inverso e cheguei de navio em Veneza num domingo de sol, peguei o trem até a estação de Cornuda (belo nome para começar uma viagem de auto-conhecimento) e depois de 2 horas de viagem chegava a uma estação vazia a cerca de 15km do meu destino e perdida em meio ao verde de uma paisagem bucólica que parece ter parado no tempo.

Paisagem bucólica dos vinhedos.

Paisagem bucólica dos parreirais ao longo do caminho.

O meu intuito inicial era conhecer a tal Col San Martino, mas acabei optando em ficar na cidade vizinha de Valdobbiadene onde encontrei o B&B Le Zitelle di Ron (as solteironas de Ron) e resolvi descansar os ossos por uns dias e aproveitar para conhecer a região que é conhecida como a Rota do Prosecco (Valdobbiadene-Col San Martino-Conegliano).

Vista panorâmica de Valdobbiadene.

Vista panorâmica de Valdobbiadene.

Aqui vale um adendo para o Le Zitelle di Ron que fica muito bem localizado em frente a uma igrejinha simpática com seu sino que badala de hora em hora e com uma vista perfeita dos parreirais e da igreja no alto da colina. A casa que hoje abriga o B&B pertencia à família de Gina e Ninna, as duas solteironas que viveram ali até o fim de suas vidas e tinham a fama no vilarejo de serem muito mal humoradas. Hoje o B&B ganhou ares de agriturismo e recebe os visitantes em instalações super confortáveis e de extremo bom gosto e ainda serve um café-da-manhã delicioso com especialidades locais e é claro o famoso prosecco Le Zittele.

Le Zittele di Ron

Le Zittele di Ron

Vista do quarto do B&B

Vista do quarto do B&B

Café-da-manhã na casa das solteironas de Ron.

Café-da-manhã na casa das solteironas de Ron.

Valdobbiadene é aquela típica cidade italiana que concentra sua vida na pracinha central em torno da catedral e onde todos os moradores se conhecessem pelo nome. Ao andar pelas ruas com a minha bici as pessoas me olhavam com cara de espanto, talvez por ser umas das poucas turistas que trafegava pelas ruas com cara de encanto e a câmera fotográfica em mãos. A cidade é cercada por colinas repletas de vinhedos e ao longo do caminho é possível encontrar muitos restaurantes que servem os tradicionais pratos vênetos acompanhados é claro do vinho local. Além disso, a cidade se orgulha de ter a menor torrefação da Itália, uma portinha minúscula no centro dá acesso à “Torrefazione Spinetta” que produz os melhores cafezinhos da cidade.

Centro de Valdobbiadene com a feirinha de segunda-feira.

Centro de Valdobbiadene com a feirinha de segunda-feira.

A

A “menor torrefação” da Itália.

Depois de me esbaldar pelos vinhedos, beber muito prosecco e experimentar as delícias da Cantina dalla Mariana estava esta que vos escreve pronta para conhecer a cidade natal dos meus antepassados: Col San Martino. Uma pacata cidade em meio a um vale e vigiada por uma catedral no alto da colina com seu relógio gigante a marcar os minutos e segundos em que o tempo passou desde que aqueles aventureiros decidiram partir e o exato momento em que esta aventureira resolveu retornar: 15.06.2015 – 12h20.

O relógio da igreja na colina.

O relógio da igreja na colina de Col San Martino.

Vista panorâmica de Col San Martino.

Vista panorâmica de Col San Martino.

Acompanhada pela Giulia, a sobrinha-bisneta das solteironas de Ron, tive uma experiência maravilhosa ao reconhecer nas paisagens as histórias e o modo de vida que os meus avôs cultivam até hoje no Brasil e entender que o tempo e a distância são meros coadjuvantes nesta longa jornada das almas. Não importa o quão longe possamos ir, nossas raízes permanecem junto de nós eternamente.

Catedral onde meus tataravós se casaram em Col San Martino.

Catedral onde meus tataravós se casaram em Col San Martino.

E foi assim que eu tive a oportunidade de conhecer um pouquinho da história dos meus antepassados e ainda visitar a Catedral onde meu tataravô Agostino Sanzovo foi batizado e casou-se com a sedutora Angela Balliana. E que as almas deles me perdoem, mas eu sonhadora que sou já imaginei a festa do casório regada a muito vinho embaixo deste parreiral como nas cenas de “Terra Nostra” ao som daquela canção que eu cantava no coral italiano quando criança….

Tiritomba é uma aldeia pequenina, sempre alegre prazenteira.Tem no alto da colina uma igrejinha. Lá eu tenho quem me queira. Tiritomba! Tiritomba! Quem me dera eu lá voltar pra lá ficar. Tiritomba! Tiritomba! Com alguém que eu possa amar.”

O banquete do casamento no parreiral que sonhei :-)

O banquete do casamento no parreiral que sonhei 🙂

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